Biquinho da Semana – Sistema da Moda
30/07/10
Em Sistema da Moda, Roland Barthes tece uma complexa análise semântica sobre as roupas femininas a partir da pesquisa em artigos da imprensa, relatando tanto a forma como esse discurso é estruturado quanto o significado que ele tem sobre a moda.
Dessa forma, apresenta a contribuição do discurso verbal para todo o sistema da moda que, no fim das contas, é o que acaba nos motivando a comprar até que o limite do cartão de crédito permita.
O livro, escrito entre 1957 e 1963 (e lançado em 1967), é um clássico da semiologia aplicada e, como tudo que envolve semiótica, não é para meio entendedor.
Ler Barthes, especialmente esse texto, é ler algo dificílimo. Até conseguir entrar na viagem do autor e começar a entender sua loucura em desvendar todo o sistema de significações da moda somente através de textos você estará no meio do livro (que é bem grossinho).
Ele é um andante da contramão ao seguir esse caminho textual dentro de um universo absolutamente visual.
Mas, é o tipo de leitura que quem quer realmente entender de moda precisa fazer (o mesmo vale para o Império do Efêmero, de Lipovetsky, que também não é uma leitura muito deliciosa, mas necessária, e embora muita gente diga ter lido, duvido que a metade tenha entendido de fato – e creio estar incluída na metade que não entendeu a plenitude da coisa #shame).
A leitura é super válida (aos corajosos e bem dispostos), pois o conteúdo não está em nada ultrapassado.
Claro que você encontra Sistema da Moda na Livraria Cultura. Claro que eles não nos pagam para dizer isso.
P.S.: O batom se chama Passion e é da Avon (Sabe aquela linha que deixa os lábios ardidos até inchar para parecerem mais volumosos? Essa).
Fê. | @fernandajaques
Painel de Inspiração – Good Morning, Angels!
29/07/10
As Panteras (tradução mais brega impossível para Charlie’s Angels) foi um seriado que passou nos Estados Unidos entre 1976 e 1981, marcando a geração das nossas mães quarentonas e cinquentonas. Sua mãe usou cabelo de Pantera. Minha mãe usou cabelo de Pantera. Aquela sua tia “excêntrica” e suburbana, certamente, ainda usa.
A série era sobre três mocinhas, policiais exemplares, que viraram investigadoras para uma empresa privada, comandada por Charlie, o qual nunca ninguém viu o rosto, apenas ouviam a voz. As moças combatiam crimes com todo o charme, beleza e lindos disfarces tornando suas aventuras, um tanto quanto, luxuosas.
Entre as várias formações do trio de atrizes que interpretaram as Panteras, tivemos Farrah Fawcett (a azarada que morreu no mesmo dia do Michael Jackson não causando comoção alguma), como Jill Munroe, que permaneceu apenas na primeira temporada; Jaclyn Smith, como Kelly Garrett, que participou em todas as temporadas da série e Kate Jackson, como Sabrina Duncan, que participou das três primeiras temporadas.
O apeal girava em torno do visual das jovens, dos seus cabelos e roupas, que claro viraram febre. Elas estavam em todos os lugares: capas de revistas, posters, comerciais de televisão e muito merchandising para diversos produtos de beleza, brinquedos, camisetas e tudo mais que se possa imaginar (o que, aliás, dizem que pagava bem mais que o salário proposto por Aron Spelling – o pai da Donna Martin e dono da produtora do seriado).
Tal qual acontece com nossas novelas, tudo que as atrizes usavam no seriado, vendia feito água, uniformizando as mulheres da época. Eu tenho a impressão que algumas peças setentistas, como a calça boca-de-sino, foi muito mais popularizadas pelas Angels do que pelo movimento hippie (onde certamente, os figurinistas buscaram inspiração por diversas vezes).
Prestando atenção em algumas peças, percebemos que podem ser facilmente encontradas hoje em dia em grandes magazines, provando que de novidade algumas “tendencinhas” (prefiro chamar de modinha) não têm nada.
Calça boca-de-sino? Paetês? Coletes? Cabelos bem tratados? Elas já trabalhavam com isso antes de você nascer.
Imagens: arquivo pessoal
Discutindo moda no papel
26/07/10
A blogosfera estava precisando de algo fora da sua esfera. No anseio pela novidade, um clássico foi reinventado: com um cheirinho de anos 90, mas mil possibilidades digitais.
Assim nasceu o Edição de Luxo, com essa vontade de andar na contramão (que o Trapo adora) e fazer diferente, pois o igual estava nos dando um baile de cansaço.
O espírito crítico deste blog nos trouxe a honra de fazer parte do segundo número do Edições de Luxo, este zine (sim, zine!) organizado pelo duo de luxo: Aline Botelho e Thiago Felix.
A segunda edição é um especial sobre crítica de moda na qual participamos com o texto “Criticar é preciso, a moda é imprecisa”. O zine ainda conta com a contribuição textual do estilista Dudu Bertholini e uma entrevista super bacana com Luigi Torre.
Fica nossa dica de leitura, para começar a semana com um olhar mais apurado e menos medroso sobre a moda e sobre o mundo, que de superficiais nunca tiveram nada.
Para seguir o zine pelo twitter: @edicoesdeluxo
Fê. | @fernandajaques
Esmalte da Semana – O Herói Desmascarado
23/07/10
Ainda na minha excursão pelo universo dos gêneros (e como alguns comentários destacaram interesse pelo assunto), encontrei o delicioso O Herói Desmascarado – A Imagem do Homem na Moda, de Mário Quieroz .
Tendo como pano de fundo os editorias da revista inglesa Arena Homme Plus, o autor analisa os arquétipos usados para atrair o homem moderno para a moda e de que forma isso retrata esse homem e suas modificações ao longo do tempo.
Gênero, papéis sociais e história da indumentária masculina se amarram para trazer algumas conclusões bem interessantes, mostrando que os homens são tão complicados quanto as mulheres (ou até mais).
Entre as melhores observações do autor eu destaco algo bem simples (e que até tuitei esses dias), mas que passa imperceptível no dia a dia. Ele diz que enquanto as mulheres usam o sistema da moda para se diferenciar socialmente, os homens (a grande maioria, pelo menos) usam esse sistema para se igualar aos outros, atestando as características fundamentais ao masculino.
O que nos faz entender por que a moda masculina não sofre mudanças tão radicais quanto a feminina: resistência pura.
Você precisa encomendar o livro pela Livraria Cultura, pois acho que comprei o último exemplar.
P.S.: O esmalte é Fendi Queimado, da Impala e eu detestei. Desaprovei o efeito matte nas minhas unhas e passei um silicone para deixar brilhoso. Um herói desmascarado que conheço disse que foi a cor mais broxante que ele já viu.
Fê. | @fernandajaques
Quando a moda se orkutiza
22/07/10
A moda desfilada nas passarelas de Londres, Paris, Nova Iorque e Milão nasce hermética e vai se popularizando. Nesse processo, ela acaba perdendo contexto e conteúdo. O que sobra? Dicas, truques, termos pontuais, releases e fotos, muitas fotos. São esses os recursos responsáveis por sua inclusão digital e televisiva. Num culto histérico à futilidade todos enaltecem a proximidade do mundinho fashion.
Uma infinidade de mídias vem aderindo às possibilidades mais populares da moda. A novela Tititi é um ótimo exemplo. Antes do folhetim ir ao ar, blogueiras famosas foram recepcionadas no Projac, e trataram de gerar curiosidade em seus leitores, através de deslumbrados posts sobre figurinos, referências e cenários. Já no capítulo de estréria, Alexandre Herchcovitch desfilou algumas peças de sua última coleção – apresentada no SPFW -, com direito a Erika Palomino e Maria Prata na platéia. Enquanto isso, no twitter, todos os Trending Topics BR eram relativos à novela. As estratégias de marketing parecem ter funcionado muito bem.
Todos assistem, todos comentam, todos se sentem especiais por captarem as semelhanças entre Tavi e a filha de Jacques Leclair. Todos? Não sejamos tão otimistas. É provável que nem 5% dos noveleiros conheçam a blogueira prodígio. Ou seja, não se animem, pois a referência tende a se diluir cada vez mais ao longo da trama. O lance da Moda acabará resumido à briga dos personagens centrais, fazedores de vestidos, aposto. Mesmo assim, Tititi será sempre conhecida como a novela da moda.
Numa manhã dessa mesma semana, Ana Maria Braga (fazendo merchan de operadora telefônica) ligou para desejar feliz aniversário ao Alexandre Herchcovitch e aproveitou a ocasião para fazer perguntinhas como “A coleção foi desenvolvida especialmente para a novela?” e a clássica “Você apostou em quais tendências para a próxima estação? Agora, muitas donas de casa já podem se orgulhar em conhecer o famoso estilista que apareceu na novela. Aliás, com alguma sorte devem conhecer até Dudu Bertholini, que na época da copa compareceu ao programa para opinar em um concurso de culinária regional. Sem dizer nada sobre seu trabalho, fez uma bela figuração. Ah, que lindo esse ‘kafka’ colorido…
Enquanto isso, na blogosfera, permanecem as já usuais tendencinhas-mastigadas-para-todos! Entre uma infinidade de recursos visuais, os olhares giram. As elucubrações sobre aspectos implícitos perderam lugar para as frases fáceis e feitas. Não é preciso ler quando se tem figuras. O velho clichê “uma imagem diz mais do que mil palavras” virou lei (taí o Tumblr que não me deixa mentir). Pra que poesia quando se tem histeria? As modas da novela são só mais um assunto para alimentar tudo isso.
Em contrapartida, a evasão da moda vem ganhando talentosos adeptos. As Gêmeas (dupla de estilistas em ascensão na Casa de Criadores) acabou de anunciar seu fim. O motivo? “Até agora estávamos tentando conciliar uma coisa com a outra: moda com fotografia, escrita, e tal, e trazer nossas novas paixões pras coleções. Mas no último desfile sentimos que havia chegado o momento de optar, que ali acabava uma fase da nossa vida”, foi o que Isadora Krieger disse à Lilian Pacce. Lamentável.
A moda (leia-se: tudo que gira em torno de vestuário produzível e usável) parece não ser mais suficiente para instigar mentes criativas. O clássico exemplo disso é Jum Nakao, que há seis anos se despediu das passarelas depois do icônico projeto A costura do invisível. Agora ele viaja o Brasil dando aulas de modelagem e promovendo instalações artísticas, como no último SPFW. Quanto às coleções de moda? Só volta se for pra inovar novamente. Fazer mais do mesmo em troca de dinheiro – ou popularidade – parece não ser opção pra todo mundo. Ufa.
Se a moda se orkutizou, podem apostar que o número de orkuticídios continuará aumentando. Aliás, ando pensando seriamente em parar de ser do contra e começar a escrever sobre o processo de acasalamento das borboletas australianas.
Pri. | @all_ice
Esmalte da Semana – A roupa e a moda
16/07/10
Cansadas de nadar contra a corrente, copiamos descaradamente a fórmula do sucesso e a partir de agora damos dicas de livros, revistas, discos, filmes e – por que não? – esmaltes. E, inaugurando a coluna, nada melhor do que falar sobre um dos livros de moda mais clássicos de todos os tempos. Excelente para quem está querendo aprender sobre moda realmente, mas não sabe como começar.
Em A roupa e a moda, James Laver faz um recorte das vestimentas mais importantes a partir da pré-história até os anos 80. O autor vai desenhando os cenários e figurinos que marcaram as várias épocas, em uma visão panorâmica sobre modelagens, tecidos, sociedades e costumes.
O ponto forte é que – ao contrário da maioria das publicações atuais sobre história da moda – o livro não se restringe ao século XX. Mas, infelizmente, por não ser muito extenso, as imagens (ótimas, a propósito!) acabam amontoadas.
Pra quem quiser conferir, o primeiro capítulo está disponível no site da Livraria Cultura.
A cobertura é ótima e a textura bem bonita. Recomendo!
p.s. 1. O esmalte é o Rio Doce da Impala.
p.s. 2. Embora a saturação do assunto me irrite muito, gosto unhas coloridas.
Pri. | @all_ice
Teoria trendy
10/07/10
A pesquisa é super importante no processo de criação. Ela orienta o criador e o possibilita entender o que está no ar. Essas relações entre a coleta de dados orientadores e a produção industrial foi tema do último Design Mais – Macrotendências e Design, que aconteceu no último dia 8, no Moinhos Shopping (em Porto Alegre), e contou com a participação de Suzana Saulquin e Eduardo Motta.
O tema é super teórico, porém muito atual. Todo mundo adora indicar quais são as “trends” do momento. Com a autoridade de um importante detentor de conexão com a internet, qualquer um vomita o termo como forma de legitimar novidades (ou nem tanto). Afinal, se é novo, é bacana! Nesse cenário onde o in vira out no intervalo de uma semana, as previsões tomam uma proporção gigantesca. É preciso pensar lá na frente, para que o produto produzido hoje não esteja ultrapassado amanhã.
Dessa forma, é imprescindível que o designer seja, sobretudo, um intelectual, que busque informação o tempo todo. A criação surge de mentes inquietas, curiosas, que fogem do pensamento analógico e têm capacidade de construir pontes de sentidos entre os vários aspectos sociais.
No entanto, como bem lembrou Motta, “previsões são limitadas, é preciso retirar seu caráter autoritário”. Para se chegar a resultados mais interessantes, a intuição e a sensibilidade devem entrar na equação das trends, segundo ele. Ou seja, dados concretos dão suporte mas não dão a solução.
Mas, o que são afinal as macrotendências? Segundo o pesquisador, macrotendências são grandes movimentos de cultura. Já as tendências são recortes temporais, feitos sazonalmente. Para Susana, tendências de moda e tendências sociais são interessantes na análise do que se usa, quando se usa e como se usa determinado adereço.
A pesquisadora lembrou que a divisão “primavera/verão” e “outono/inverno” veio com a sociedade industrial, a partir de 1960. Naquela época, os ciclos duravam muito mais tempo. Hoje em dia, a divisão é vista da seguinte forma:
- Microtendências: duram 2 anos
- Tendências de médio prazo: duram 6 anos
- Macrotendências: duram 12 anos
Esses movimentos não englobam apenas moda, mas qualquer movimento social, como artes, música e literatura.
Quanto à moda, especificamente, ela pode ser traduzida em paradoxo entre experiência indivudual e produção massiva. “As pessoas se apropriam dos objetos de uma maneira única, imprimindo neles sua identidade”, apontou Eduardo Motta. Nesse sentido, a tendência atual é a produção para pequenos nichos, onde a identidade se traduz de forma mais expressiva.
Nada é exato, mas a pesquisa aponta caminhos importantes para os designers. Essa pesquisa de tendências é feita através de metodologias que transformam fenômenos de comportamentos socioculturais em informações e que servem para orientar o mercado, através de antecipações do que (provavelmente) está por vir, auxiliando na identificação de mercados emergentes.
Na próxima vez que você se deparar com aquela foto tirada de forma furtiva no provador de uma loja de fast fashion, em uma montagem poluída de photoshop e uma indicação “tem que ter”, vale lembrar que existe uma pesquisa gigantesca por trás do desenvolvimento de cada “tendencinha”.
Pri. | @all_ice
Questão de Gênero – Parte II
04/07/10
O gênero feminino evoluiu. Saiu da casca. Buscou atribuições em outros universos. Permitiu-se absolutamente tudo e, hoje, está mais amadurecido e menos ansioso em provar que pode. Aliás, provou que pode ser o que quiser sem perder a suavidade. É neste equilíbrio entre a força e a delicadeza que habita a mulher atual (e não só a mulher, mas, também, os gays que incorporaram características do feminino).
Le Smoking, 1966, por Yves Saint Laurent
Mas e quanto a eles, os homens tipicamente machos-alfa, provedores, testosterona puro? Como estão lidando com as atribuições do seu próprio gênero?
Creio que eles estão se reestruturando, de alguma forma. Tentam nos acompanhar (e todas as nossas novas exigências) e estão aprendendo, também, a usar a moda a favor disso. O rompimento de conceitos nunca será tão visceral quanto foi o nosso, até porque os homens nunca estiveram em uma situação opressiva e de submissão consentida, mas nem por isso menos interessante.
No último SPFW, João Pimenta fez sua estréia no evento trazendo justamente isso: um encontro entre os gêneros masculino e feminino onde detalhes delicados, cintura mais alta e ajustada, laçarotes, rendas e silhuetas-fetiche lembrando espartilhos ganharam uma forma viril e inegavelmente sensual. Essa coleção representou, no meu olhar, um novo homem. Sabe aquele cara que consegue ser sensível e protetor? Que chora em filmes dramáticos, que se importa com o que veste, que compreende o que se passa na nossa complicada cabecinha? Eu, pelo menos, imaginei esse homem ao assistir o desfile.
O emocionante desfile de João Pimenta
[Fonte: Portal FFW]
Apropriar-se do guarda-roupas masculino tornou a mulher segura para ganhar o mundo e lhe deixou natural e confortavelmente sexy. Por que com o homem seria diferente?
Lady Gaga (até segunda ordem) e Shirley Mallmann travestidas: sexy, heim?
Porque ao fazer a inversão e se perguntar se um homem trajando peças do guarda-roupas feminino seria sexy para o nosso olhar a resposta é que, provavelmente, não seria.
A gente só ia conseguir ver um homem travestido de mulher, o que é até engraçado e divertido, pelo menos aqui, na sociedade brasileira, de valores ainda tão engessados.

Na Europa alguns já aderiram. Conseguem imaginar um brasileiro, típico pai de família e executivo de uma grande empresa usando scarpin com meia calça?
E talvez seja isso que justamente falte aos nossos homens: um pouco mais de liberdade para ser e um pouco menos de obrigação em parecer. Por outro lado se a gente levou séculos para adquirir esse “direito”, não dá para querer que tudo seja para ontem. Mas a jornada já teve seu início, com isso podemos contar.
(Parêntese para Marc Jacobs, que é lindo, muito sexy e usa saias – mas comporta a homossexualidade, o que não faria dele uma exceção dentro do meu discurso).
Ai ai…
[Fonte: Delírios de Fashionista]
Fê. | @fernandajaques
Painel de Inspiração – Jean Shrimpton
02/07/10
Ora ícone de elegância, ora ícone de rebeldia jovem. Essa bela inglesa já fazia sucesso como modelo bem antes de Twiggy ter seus cabelões cortados (sim, um dia Twiggy já teve longas madeixas e só estourou quando as cortou e ganhou o ar androgino pelo qual ficou conhecida).
Se você está se arrumando para sair e experimentando aquela micro-saia que seu pai mentalmente desaprovaria, saiba que você só não é confundida com mulheres de vida fácil graças às seguidoras de Mary Quant. Jean, assim como outras meninas corajosas, revolucionou modos e modas, muito bem embalada pela efervescência do Swinging London. Inspire-se:
Fonte: Arquivo pessoal
Fê. | @fernandajaques
Questão de gênero – Parte I
29/06/10
Carinha simpática de Simone
Em 1949, ao afirmar que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher” [*], Simone de Beauvoir revolucionou toda uma geração de meninas crentes de que, em função de terem nascido com ovários, eram destinadas a ser e realizar um check list de coisas pra lá de boring (tipo lavar, passar, ter boas maneiras e muitos filhos).
Ao dar às mulheres, pelo menos no âmbito filosófico da coisa, o direito de pensar que poderiam desempenhar qualquer papel social, independentemente do sexo (já que o gênero e suas características são códigos sociais e não biológicos), ela largou uma coceira generalizada que possibilitou para nós, mulheres contemporâneas, o direito de escolha sobre o que queremos fazer e quem queremos ser.
Mas bem antes disso, Coco Chanel já era quem ela queria ser e fez o que nem todas nós conseguimos fazer hoje em dia (embora a ideia seja ótima): criou um império, obteve poder, fama, fortuna além, é claro, de muitos amantes (o que é bem importante, diga-se de passagem).
Certamente Chanel não teria contribuído tanto para a história da moda (e para a própria participação das mulheres na sociedade) se tivesse se casado e tido um bando de filhos. Pelo menos eu tenho certeza que não.
Coisas que só Mademoiselle Chanel poderia ter pensado: roupas com inspiração no masculino e toques mega delicados.
Agora, não se pode negar que o seu grande diferencial foi ter iniciado tudo isso “fantasiada” com peças da indumentária masculina e orientada por um falso self também cheio de características tipicamente másculas como a força, a ousadia e o exercício da liberdade.
Ela não se vestia de homem, veja bem. Até porque tinha o dom de deixar qualquer peça mais feminina com o seu amor por detalhes. Entretanto, é bem difícil acreditar que ela teria feito tudo que fez presa a um espartilho ou a quilos de tecido em forma de saia.
Ela deixou mais que provado que nossos pensamentos fluem melhor quando estamos confortáveis
Incorporar peças masculinas não garantiu para Chanel apenas um estilo singular, mas, também, uma mobilidade indispensável para qualquer ser humano que deseje trabalhar.
E não é que seu estilo ficou?
Claro que a moda sozinha não pode ganhar os créditos de um século de mudanças e transformações nos (muitos!) papéis que as mulheres vem desempenhando. Porém, na minha opinião, é muito óbvio que a partir desse “assalto” no guarda-roupas deles e da subversão da moda masculina a nosso favor, nos foi possível roubar muito além de calças.
[*] : Le Deuxième Sexe (O Segundo Sexo), 1949
Fê. | @fernandajaques


























