Priscila Vanzin
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Artigos por Priscila Vanzin
Quando a moda se orkutiza
22/07/10
A moda desfilada nas passarelas de Londres, Paris, Nova Iorque e Milão nasce hermética e vai se popularizando. Nesse processo, ela acaba perdendo contexto e conteúdo. O que sobra? Dicas, truques, termos pontuais, releases e fotos, muitas fotos. São esses os recursos responsáveis por sua inclusão digital e televisiva. Num culto histérico à futilidade todos enaltecem a proximidade do mundinho fashion.
Uma infinidade de mídias vem aderindo às possibilidades mais populares da moda. A novela Tititi é um ótimo exemplo. Antes do folhetim ir ao ar, blogueiras famosas foram recepcionadas no Projac, e trataram de gerar curiosidade em seus leitores, através de deslumbrados posts sobre figurinos, referências e cenários. Já no capítulo de estréria, Alexandre Herchcovitch desfilou algumas peças de sua última coleção – apresentada no SPFW -, com direito a Erika Palomino e Maria Prata na platéia. Enquanto isso, no twitter, todos os Trending Topics BR eram relativos à novela. As estratégias de marketing parecem ter funcionado muito bem.
Todos assistem, todos comentam, todos se sentem especiais por captarem as semelhanças entre Tavi e a filha de Jacques Leclair. Todos? Não sejamos tão otimistas. É provável que nem 5% dos noveleiros conheçam a blogueira prodígio. Ou seja, não se animem, pois a referência tende a se diluir cada vez mais ao longo da trama. O lance da Moda acabará resumido à briga dos personagens centrais, fazedores de vestidos, aposto. Mesmo assim, Tititi será sempre conhecida como a novela da moda.
Numa manhã dessa mesma semana, Ana Maria Braga (fazendo merchan de operadora telefônica) ligou para desejar feliz aniversário ao Alexandre Herchcovitch e aproveitou a ocasião para fazer perguntinhas como “A coleção foi desenvolvida especialmente para a novela?” e a clássica “Você apostou em quais tendências para a próxima estação? Agora, muitas donas de casa já podem se orgulhar em conhecer o famoso estilista que apareceu na novela. Aliás, com alguma sorte devem conhecer até Dudu Bertholini, que na época da copa compareceu ao programa para opinar em um concurso de culinária regional. Sem dizer nada sobre seu trabalho, fez uma bela figuração. Ah, que lindo esse ‘kafka’ colorido…
Enquanto isso, na blogosfera, permanecem as já usuais tendencinhas-mastigadas-para-todos! Entre uma infinidade de recursos visuais, os olhares giram. As elucubrações sobre aspectos implícitos perderam lugar para as frases fáceis e feitas. Não é preciso ler quando se tem figuras. O velho clichê “uma imagem diz mais do que mil palavras” virou lei (taí o Tumblr que não me deixa mentir). Pra que poesia quando se tem histeria? As modas da novela são só mais um assunto para alimentar tudo isso.
Em contrapartida, a evasão da moda vem ganhando talentosos adeptos. As Gêmeas (dupla de estilistas em ascensão na Casa de Criadores) acabou de anunciar seu fim. O motivo? “Até agora estávamos tentando conciliar uma coisa com a outra: moda com fotografia, escrita, e tal, e trazer nossas novas paixões pras coleções. Mas no último desfile sentimos que havia chegado o momento de optar, que ali acabava uma fase da nossa vida”, foi o que Isadora Krieger disse à Lilian Pacce. Lamentável.
A moda (leia-se: tudo que gira em torno de vestuário produzível e usável) parece não ser mais suficiente para instigar mentes criativas. O clássico exemplo disso é Jum Nakao, que há seis anos se despediu das passarelas depois do icônico projeto A costura do invisível. Agora ele viaja o Brasil dando aulas de modelagem e promovendo instalações artísticas, como no último SPFW. Quanto às coleções de moda? Só volta se for pra inovar novamente. Fazer mais do mesmo em troca de dinheiro – ou popularidade – parece não ser opção pra todo mundo. Ufa.
Se a moda se orkutizou, podem apostar que o número de orkuticídios continuará aumentando. Aliás, ando pensando seriamente em parar de ser do contra e começar a escrever sobre o processo de acasalamento das borboletas australianas.
Pri. | @all_ice
Esmalte da Semana – A roupa e a moda
16/07/10
Cansadas de nadar contra a corrente, copiamos descaradamente a fórmula do sucesso e a partir de agora damos dicas de livros, revistas, discos, filmes e – por que não? – esmaltes. E, inaugurando a coluna, nada melhor do que falar sobre um dos livros de moda mais clássicos de todos os tempos. Excelente para quem está querendo aprender sobre moda realmente, mas não sabe como começar.
Em A roupa e a moda, James Laver faz um recorte das vestimentas mais importantes a partir da pré-história até os anos 80. O autor vai desenhando os cenários e figurinos que marcaram as várias épocas, em uma visão panorâmica sobre modelagens, tecidos, sociedades e costumes.
O ponto forte é que – ao contrário da maioria das publicações atuais sobre história da moda – o livro não se restringe ao século XX. Mas, infelizmente, por não ser muito extenso, as imagens (ótimas, a propósito!) acabam amontoadas.
Pra quem quiser conferir, o primeiro capítulo está disponível no site da Livraria Cultura.
A cobertura é ótima e a textura bem bonita. Recomendo!
p.s. 1. O esmalte é o Rio Doce da Impala.
p.s. 2. Embora a saturação do assunto me irrite muito, gosto unhas coloridas.
Pri. | @all_ice
Teoria trendy
10/07/10
A pesquisa é super importante no processo de criação. Ela orienta o criador e o possibilita entender o que está no ar. Essas relações entre a coleta de dados orientadores e a produção industrial foi tema do último Design Mais – Macrotendências e Design, que aconteceu no último dia 8, no Moinhos Shopping (em Porto Alegre), e contou com a participação de Suzana Saulquin e Eduardo Motta.
O tema é super teórico, porém muito atual. Todo mundo adora indicar quais são as “trends” do momento. Com a autoridade de um importante detentor de conexão com a internet, qualquer um vomita o termo como forma de legitimar novidades (ou nem tanto). Afinal, se é novo, é bacana! Nesse cenário onde o in vira out no intervalo de uma semana, as previsões tomam uma proporção gigantesca. É preciso pensar lá na frente, para que o produto produzido hoje não esteja ultrapassado amanhã.
Dessa forma, é imprescindível que o designer seja, sobretudo, um intelectual, que busque informação o tempo todo. A criação surge de mentes inquietas, curiosas, que fogem do pensamento analógico e têm capacidade de construir pontes de sentidos entre os vários aspectos sociais.
No entanto, como bem lembrou Motta, “previsões são limitadas, é preciso retirar seu caráter autoritário”. Para se chegar a resultados mais interessantes, a intuição e a sensibilidade devem entrar na equação das trends, segundo ele. Ou seja, dados concretos dão suporte mas não dão a solução.
Mas, o que são afinal as macrotendências? Segundo o pesquisador, macrotendências são grandes movimentos de cultura. Já as tendências são recortes temporais, feitos sazonalmente. Para Susana, tendências de moda e tendências sociais são interessantes na análise do que se usa, quando se usa e como se usa determinado adereço.
A pesquisadora lembrou que a divisão “primavera/verão” e “outono/inverno” veio com a sociedade industrial, a partir de 1960. Naquela época, os ciclos duravam muito mais tempo. Hoje em dia, a divisão é vista da seguinte forma:
- Microtendências: duram 2 anos
- Tendências de médio prazo: duram 6 anos
- Macrotendências: duram 12 anos
Esses movimentos não englobam apenas moda, mas qualquer movimento social, como artes, música e literatura.
Quanto à moda, especificamente, ela pode ser traduzida em paradoxo entre experiência indivudual e produção massiva. “As pessoas se apropriam dos objetos de uma maneira única, imprimindo neles sua identidade”, apontou Eduardo Motta. Nesse sentido, a tendência atual é a produção para pequenos nichos, onde a identidade se traduz de forma mais expressiva.
Nada é exato, mas a pesquisa aponta caminhos importantes para os designers. Essa pesquisa de tendências é feita através de metodologias que transformam fenômenos de comportamentos socioculturais em informações e que servem para orientar o mercado, através de antecipações do que (provavelmente) está por vir, auxiliando na identificação de mercados emergentes.
Na próxima vez que você se deparar com aquela foto tirada de forma furtiva no provador de uma loja de fast fashion, em uma montagem poluída de photoshop e uma indicação “tem que ter”, vale lembrar que existe uma pesquisa gigantesca por trás do desenvolvimento de cada “tendencinha”.
Pri. | @all_ice
“Blogueiro” já é ofensa?
27/06/10
Muito já se falou sobre as diferenças entre blogueiros de moda e jornalistas de moda, mas o assunto parece não ter fim. A discussão sempre acaba levantando questões sobre o poder de crítica. Quem pode emitir opinião sobre o trabalho dos estilistas? Alias, o criador é um ser imaculado acima do bem e do mal? Seria falta de respeito gostar, ou não, de determinada coleção sem o aval de um grande veículo ou, no mínimo, um diploma de jornalismo?
Depois do São Paulo Fashion Week, Erika Palomino, editora do portal FFW, escreveu um texto ótimo sobre crítica de moda (Pensata da Palô #15: considerações sobre a temida crítica de moda). Erika trabalha há vinte anos com jornalismo de moda, porém não tem formação acadêmica. Talvez a falta de um pedaço de papel atestando sua “habilitação em jornalismo” seja responsável por grande parte de sua lucidez e coerência. Na pensata em questão, ela falou sobre os efeitos das críticas na consciência dos estilistas, enfatizando que o principal papel da resenha é nortear a indústria,“o consumidor final pouco liga se, no pós-desfile, o/a jornalista xis gostou ou não do desfile”. Resumindo: maturidade faz a gente entender que não é Deus! Em momento algum ela utiliza a palavra blogs. Contudo, deixa claro que novas vozes são bem vindas. Vale transcrever outro trecho:
“O peso de quem escreve importa, claro. Porém, num país de história de moda recente como o Brasil, é preciso dar voz às novas gerações de resenhadores, e deixá-la se exercitar. Ninguém começa acertando sempre, da mesma forma como bons e consolidados estilistas também são passíveis de erros.”
Na mesma semana, Renata Piza (editora da Elle) publicou um texto intitulado “Por um bom jornalismo de moda”, onde tratou das diferenças entre jornalistas e blogueiros. Em uma generalização demasiada, ela disparou: “todos sabemos que a maioria dos blogs rouba material alheio, especialmente fotos”. A jornalista acha que o “gosto não gosto” não é suficiente, é preciso fazer relações e apresentar referências. Impossível não concordar com o último ponto, mas quem garante que um blogueiro não tem as condições necessárias para fazer as devidas conexões?
Vale lembrar que entre se expressar e ser ouvido existe um grande abismo. Por exemplo, se uma blogueira das modas & maquilagens – do tipo fã de neologismos e diminutivos, seguidora de promoções e fofoqueira “baphônica” – disser que a última coleção da Neon é “feia”. Ou então, que jamais usaria o vestido transparente, com a mata atlântica de fora. Qual a relevância disso? Quem irá respeitar a opinião? Alguém com tanta bagagem fléxion quanto a tal blogueira, no máximo! Mas, convenhamos, a cliente Neon deixará de comprar peças da marca? Dudu e Rita ficarão inconsoláveis? Paulo Borges irá bani-los do próximo SPFW? I don’t think so.
Os blogs realmente têm influência direta no sucesso de uma coleção? Me parece que os jornalistas de moda andam superestimando a função comercial da crítica, como disse a própria Erika.
Os dois textos citados acima foram copiosamente retuitados. Ambos, inclusive, por um grande número de blogueiros e jovens aspirantes a críticos/jornalistas de moda. A revista Elle e o portal FFW têm tanto prestígio que, mesmo com uma passada de olhos no texto, as pessoas amam cada linha (?). Agora, pensando mais a fundo, o baixo critério na valoração dos textos se deve à qualidade, propriamente dita, ou aos veículos onde eles se encontram? Ainda que o segundo texto ofenda toda uma classe, vários de seus componentes gostaram muito do que leram. Aliás, espero que realmente tenham lido na íntegra. E, se só eu percebi equívocos absurdos de abordagem, por gentileza me avisem.
Então, não há motivo para pânico! Qualquer resenha, embasada (ou não), cheia de referências (ou não), crítica (ou não), só terá considerável relevância quando impressa em uma revista de lombada quadrada e de nome conhecido ou hospedada num grande portal destinado à moda. Esses cenários passam maior credibilidade do que um blog de template padrão e escrito por um quase anônimo.
Porém, ainda que os blogs sejam preteridos às mídias tradicionais, é preciso ficar atento às distinções entre eles. Cada revista – que possua alguma seção destinada à moda – tem sua abordagem peculiar. Elle, Manequim, In Style, Criativa, Tititi, Capricho, Minha Novela, Vogue, Gloss… todas – guardadas as devidas proporções – falam sobre moda. No entanto, não possuem o mesmo direcionamento, tampouco profundidades equivalentes. Então, porque os blogs deveriam ser encarados da mesma maneira?
Existe muito lixo na blogosfera, é fato. Blogs que sobrevivem de promoções, propaganda de produtos e reprodução de releases, são qualquer coisa, menos veículos de moda. Todavia, tem gente muito bacana com opiniões coerentes que realmente produz conteúdo original. Trata-se de uma minoria, mas que merece ser respeitada. Antes que o termo “blogueiro” vire ofensa, é preciso separar os “furtadores de conteúdo” daqueles que realmente apresentam um olhar diferente, dificilmente encontrado no mainstream (tão atrelado aos interesses de seus anunciantes).
Quando um jovem estilista começa a vender camisetas aos amigos, todos acham ótimo. Então, como condenar os aspirantes a jornalistas de moda (ou de política, futebol, economia, culinária…) em pleno exercício da publicação?
Ter um blog é uma das melhores maneiras de promover a pesquisa e exercitar a edição. Ninguém aprende a escrever apenas lendo. Crítica de moda não é função regulamentada por lei, ao contrário do que alguns gostariam. Portanto, qualquer um pode fazê-la (nesse caso, é a credibilidade que fará a diferença). Lógico, convém pesquisar, buscar referências, estudar o assunto, se instruir de várias formas, como indicaram ambas as jornalistas. Mas, pelo que tenho visto por aí, quem não tiver paciência para tanto, continuará sorteando kit de maquiagem ou sapato de marca popular.
Aos jornalistas, indico Suzy Menks, Regina Guerreiro, a própria Erika Palomino, Cathy Horyn, Alcino Leite Neto e Carine Hoitfeld como modelo. Olhem para cima. Se inspirem. Nos inspirem! E, se forem copiados, tomem como o mais sincero elogio. Aqui nesse blog, garanto que jamais serão, não sem os devidos créditos e contexto relevante. ;D
Nenhum blog-porcaria vai colocar o jornalismo na berlinda, assim como nenhum “analfabeto” tomará o emprego de um jornalista com diploma. Porém, algo me diz que todo esse temor nada tem a ver com analfabetos, muito menos com blogueiros-porcaria.
Pri. | @all_ice
São Paulo Fashion Week e os opinativos – Parte final.
17/06/10
Os últimos:
REGIONALISMO URBANO: Ronaldo Fraga.
Inspirado no modernismo de Mário de Andrade – mais precisamente, no livro “O turista aprendiz” – Ronaldo Fraga apresentou uma coleção urbana, mas com as raízes na cultura brasileira. Sem tantas cores e com um conceito subjetivo, as roupas foram o grande destaque. Bordados delicados e resultado feminino.
Eles dizem:
- Regina Guerreiro (UOL) lembrou da inspiração na viagem pelo Brasil feita por Mário de Andrade, a qual deu origem ao livro “O turista aprendiz”. O estilista também se considera um pouco turista aprendiz. No entanto, Regina discorda: “Ronaldo é um sacerdote!”. A jornalista falou sobre a presença de trabalhos manuais sem nenhum ranço de caipirismo. Além disso, elogiou as bermudas e luvas feitas de paetês colados no corpo.
- Luigi Torre (FFW) fez uma resenha ótima. Ronaldo Fraga, segundo Luigi, “troca o espetáculo pelo foco no produto, adapta o passado ao presente, e transforma o tradicional em contemporâneo.” Parece que esse é seu grande mérito, em especial nessa coleção.
- Laura Ancona Lopez (Elle) descreveu.
- Adriane Hagedorn (Petiscos) não aprovou as bermudas e luvas de paetês, mas gostou do efeito “chuvinha” quando elas se descolavam. Limitou-se à descrição, sem ódios nem amores.
Original, criativo e mesmo assim usável.
O CONTROVERSO: André Lima.
No mundo autista de André Lima, a roupa é espetáculo. Aonde ir com ela? Essa é uma preocupação que não nos cabe. Sua cliente deverá ter dinheiro suficiente para não se preocupar com esse detalhezinho tão burocrático. Metros e metros de tecidos deixaram o New Look do Dior parecendo uma lição de economia.
Eles dizem:
- Regina Guerreiro (UOL) resumiu em um termo: desastre. “Quem sai vestida desse jeito? Aonde ir assim?”. Sincera e enfática, Regina achou a coleção horrorosa. Para ela, André Lima divide o posto de pior da temporada, ao lado de Fause Haten. “Fracos, alegóricos, exacerbados… grotesco.”
- Erika Palomino (FFW) é do time da Regina: “Se todas nós tivéssemos onde ir com essas roupas, se fôssemos todas jet-setters, estrelas, artistas em festas loucas e rycas. Maximalista, extraordinário, hiperbólico, André Lima se descola (ou se desloca) cada vez mais do line-up, em sua viagem mais do que pessoal. Para o bem _e para o mal. E que o povo durma com o barulho de seu show.” A crítica é ótima, mas essa ‘ryqueza’ de neologismo katilênico só é legal no twitter (e olhe lá!).
- Regina Valadares (Elle) achou emocionante e lindo. “Mais do que bonitos, seus vestidos são imponentes, grandiosos, cheios de luz própria.” Não concordo, mas adoro quando alguém desce do muro na Elle.
Para quem não sabe bem o que achar, qualquer vestidão é espetáculo.
DESFILA PARA GISELE: Colcci.
Há alguns anos era a Cia Marítima que se beneficiava da imagem Gisele. Quem não lembra da legião de patricinhas com biquínis de Che Guevara em areias brasileiras? Gisele Midas é exclusiva da Colcci há seis anos. Ficou parada apenas um – em função da gravidez – e todos já comemoram seu “grande retorno”. Fernanda Tavares e Shirley Mallmann também desfilaram, alguém viu? Enquanto todas as resenhas só falam de Gisele, fica complicado lembrar da coleção.
Eles dizem:
- André Rodrigues (FFW) fez um texto ótimo exaltando todo o poder de Gisele. Colcci é Gisele. Sem ela, Colcci seria apenas Colcci. O que, no fim das contas, não é lá muito bom.
- Laura Ancona Lopez (Elle) enfatizou a referencia 60’s.
- Adriane Hagedorn (Petiscos) comentou sobre os gritinhos frenéticos provocados pela presença da uber. Ainda fez uma analogia das estampas de araras com as andorinhas da miu-miu.
Gisele, Gisele, Gisele, Gisele… e só.
Belo trabalho da equipe do ffw.com.br. Resenhas fundamentadas e críticas. O Petiscos – mesmo com sua linha editorial mais leve – trouxe boas observações. A Elle ficou devendo na opinião. Regina Guerreiro é musa eterna! Sem falsas amiguices, trouxe referências que só ela poderia ter lembrado e opinou sem medo.
ps. Todas as fotos do SPFW foram retiradas do ffw.com.br
Pri. | @all_ice
São Paulo Fashion Week e os opinativos – Parte 3.
15/06/10
Trio maravilha:
FIGURINO OU COLEÇÃO? Lino Vilaventura.
A lembrança mais emblemática que tenho do Lino Villaventura é uma capa da Caras com a Xuxa desfilando para a marca e exibindo – oficialmente – seus então “novos” seios. Isso aconteceu em 2000, e a “moldura” de tamanha obra cirúrgico-artística (sic) é tão atual quanto a coleção desfilada nessa edição do SPFW. A roupa de Lino é eterna!
A passarela, com listras pretas e brancas, promoveu um belíssimo mimetismo em op-art nos primeiros looks, o que me lembrou uma cena linda de ‘Qui êtes-vous Polly Maggoo?’ (filme sobre moda, super clássico dos anos 60). A referência original em Carmem Miranda, que estava presente em adereços para cabeça nada literais. “Quando se usa todas as cores, é impossível que algo não combine”, essa é a máxima do estilista.
Eles dizem:
- André Rodrigues (FFW) em uma gongada pertinente e sincera, declarou: “O desfile abre com uma promessa animadora de op art, em que as roupas se confundem com a passarela e vice-versa, mas o ânimo – ou melhor, a “Anima” da coisa – dura exatos quatro looks.” Até concordo em parte – gostaria de ver mais looks em P&B – mesmo assim, não consigo deixar de amar a coleção, que perpetua a coerencia eterna do estilista.
- Laura Ancona Lopez (Elle) descreveu.
- Adriane Hagedorn (Petiscos) discorreu sobre a coleção com base na inspiração em Carmem Miranda. Descreveu, mas trouxe referências.
- Regina Guerreiro (UOL) não fica em cima do muro nunca. Entre bonitices e cafonices, colocou o desfile no primeiro time. Regina elogiou os “patworks desvairados e complicados” e confessou que – a contragosto do próprio estilista – vê Lino mais como figurinista do que como estilista. Para ela, suas roupas teatrais mereciam estar no Metropolitan ou na Broadway.
Na tendência e na demência, prefiro quem cria a quem copia.
MERGULHO CHIQUE: Neon.
O batom vermelho das modelos já denuncia: enquanto o mundo pira em lábios verdes, pretos e azuis, a Neon se mantém firme em suas marcas registradas! Dudu e Rita perpetuam a essência da Neon desde a primeira coleção e mesmo assim conseguem se reinventar a cada estação. Com referência nos esportes náuticos, a Neon edita nas cores e aposta no navy. O cenário (uma piscina olímpica) continua sendo parte espetáculo Neon. Com a indefectível cintura marcada, a mulher Neon continua elegante. O neoprene aparece fino, os volumes são colocados nos lugares certos. As estampas são honestamente inspiradas em Yves Saint Lourent, mas nem por isso parecem cópias. A dupla jamais esquece do corpo que veste suas roupas. A modelagem é impecável e conversa bem com as formas femininas (Alexandre, oi?). Elegância sem caretice.
Eles dizem:
- Erika Palomino (FFW) sintetizou muita coisa em uma única frase: “Estamos vivendo não mais o momento do ineditismo, mas o da curadoria”. Genial, não? Referências e edição para todos!
- Renata Piza (Elle) exaltou o espetáculo, a moda como show. Em suas palavras: “Dudu Bertholini e Rita Comparato trocaram as salas frias da Bienal por uma piscina pública na Água Branca, já que o tema da coleção – surf versus náutico – tem mesmo muito mais a ver com água do que com concreto.” Sala fria com a Neon? Nunca vi, tampouco consigo imaginar.
- Regina Guerreiro (UOL) falou sobre as proporções modernas e maios chiquérrimos. Para ela o neoprene trouxe uma nova leitura da alta costura.
Todos amam e, nesse caso, é impossível ser do contra. Afinal, tem como não amar?
MARACATU POP: Amapô.
Festejos regionais E aplicações mil. Famosas pelas cores intensas, a dupla Pitty e Carô, dessa vez também surpreendeu com cores claras. Transparências, babados, bordados, recortes diagonais e franjas. Aliás, esse franjismo todo apareceu em um look típico de patinadora do gelo. Homem ou mulher, Maria Bonita ou Lampião todos festejam em trajes alegremente apropriados.
Eles dizem:
- Mari Rossi (Petiscos) foi só elogios e – com a proximidade usual de seus textos – ainda pediu o vestido da Carô emprestado. E quem não queria?
- Regina Valadares (Elle) descreveu e também achou tudo lindo.
- Luigi Torre (FFW) apontou a evolução técnica e de estilo da marca. Além disso lembrou dos contrapontos tradição x contemporaneidade, erudição x cultura pop presentes na coleção em uma ótima resenha.
Alegria cromática, trabalho consolidado.
Na sequência, o último (e atrasado) post do SPFW.
Pri.| @all_ice
São Paulo Fashion Week e os opinativos – Parte 2.
14/06/10
PELO CONJUNTO DA OBRA: Ellus.
Encantar com jeanswear não é tarefa tão simples, mas a Ellus – na medida do possível – conseguiu. A começar pelo backstage que invadiu a passarela, nas versões feminina e masculina. Com os dois desfiles acontecendo ao mesmo tempo, os homens roubaram a cena.
Fresca, tropical, com um pé no Havaí e os olhos nos tradicionais uniformes de marinheiro, a marca faz bonito no nicho que se propõe. As moças aparecem com moletons em recortes inusitados, jeans amassados, além de tecidos ultra femininos como cetins e musselines. Estampas florais, alfaiataria veranil, chapéus cheios de garbo, jeans lavados prometem uma modernidade de essência retrô até para os rapazes mais caretinhas.
Dizem por aí:
- Regina Guerreiro (UOL) achou “super pra cima e super bonitinho”. Para ela a coleção sai do terno e gravata sem transformar ninguém em fashion victium. Avessa aos supérfluos femininos, a jornalista tem se encantado pela moda masculina, no geral. Mesmo assim, achou que a presença de peças descosturadas e abotoamento com chifrinhos de osso deram um frescor às mulheres. Faz sentido.
- Laura Ancona Lopez (Elle) deu um panorama geral sobre a cenografia. No entanto, limitou-se a comentar os looks femininos. Também fez um paralelo com os calçados de Balenciaga, mas ignorou os rapazes – uma pena!
- Mari Rossi (Petiscos) descreveu as peças e o cenário. Criticou os docksides em formato de ancle boot que quase derrubou as modelos (algo que não percebi no vídeo). Na verdade, o que vi foram oxfords com saltos vertiginosos mas – definições a parte – eram desconfortavelmente belos.
- Erika Palomino (FFW) se encantou pela atmosfera fresh da coleção e lembrou que a marca fugiu de sua usual “urbanidade dark”.
Figurino “sombra e água fresca” até para os mais urbanóides!
QUANDO A ROUPA SE SOBREPÕE ÀS FORMAS DO CORPO: Alexandre Herchcovitch (fem.).
Cartela de cores divina e modelagem aclamada. Alexandre agradou novamente. Os ombros continuam quase tão marcados como no verão 2010 (inspirado no uniforme dos jogadores de futebol americano), mas agora aparecem em vestidinhos acetinados e fluidos. Estampas que lembram tetris e paintball, degradês em cores brilhantes, além de vestidos monocromáticos em tons lindíssimos, tudo isso pontuado por alguns looks pretos ao longo do desfile. No make, batons em um verde-desejo (esquisitismo que promete virar febre). Mas, antes que as makeup addicted entrem em colapso, já aviso: a tonalidade foi produzida por Celso Kamura e os batons não estão sendo comercializados.
Dizem por aí:
- Regina Guerreiro (UOL) acha que “são os vestidos mais lindos do mundo”. Para ela o molengo cetim lingerie lembra as camisolas das mamães. Regina viu uma aula de construção, com volumes no lugar certo, “as mangas não ficam na bobice de ser uma manga bufante, elas tem desenhos diferentes”, explica.
- Renata Piza (Elle) encantada com as cores e a modelagem, ela traçou um paralelo com a arte, acreditando que Alexandre brincou de “artista plástico”. Hm, não misturemos as coisas…
- André Rodrigues (FFW) também se mostrou atônito pela beleza das cores e discorreu sobre a explosão cromática em 90% de sua resenha.
- Adriane Hagedorn (Petiscos) começou elogiando a disposição das cadeiras, que deixavam os convidados mais próximos das modelos. Confesso que achei visualmente confusa a disposição de duas fileiras no meio da passarela. Ela bate na tecla da modelagem e diz que basta vestir uma peça do Alexandre para admirar sua “modelagem sem igual”. Talvez seja essa a lição de casa que me falta para entendê-lo.
Mulheres providas de peito, cintura e quadril, encarnem o cabide! A modelagem não valoriza o corpinho, mas as cores enchem os olhos de alegria.
THAT’S HOT, MAS NEM TANTO: Triton.
Franjas, plataformas, brilhos, babados e boleros. Com uma infinidade de elementos e na falta de edição, mais é sempre mais. A festa da Triton contou com a ilustre presença de Paris Hilton. A party girl veio lépida e fagueira com maquiador e cabelereiro a tiracolo (decisão controversa Paris, teu perucón não convenceu). Seu segundo look merece destaque: um vestido gigante, do segmento militarista, cheio de franjas, que mais lembrava uma cangaceira melindrosa.
Dizem por aí:
- Regina Guerreiro (UOL), super sincera, acha que “celebridade não resolve o problema de produto” e criticou duramente todo o desfile.
- Luigi Torre (FFW) achou que Paris Hilton foi uma “escolha difícil de entender”. Oi? Festa? Paris? Mídia? Captou Luigi? No fim, ele definiu “comercial, sem ser chato, ousado sem ser conceitual”.
- Regina Valadares (Elle), em cima do muro, apontou o desfile como um verão sem loucuras para mocinhas bonitas e bem comportadas.
Já entendi que franja é tendência, agora alguém me explica a estampa de unicórnio?
Pri. | @all_ice
São Paulo Fashion Week e os opinativos – Parte 1.
13/06/10
A cada seis meses, os grandes expoentes da moda brasileira apresentam coleções norteadas por tendências internacionais e geralmente com uma pegada bem comercial. Mesmo assim, ainda existem estilistas criativos que surpreendem em meio a queridinhos que são invariavelmente “adorados” (sabe-se lá o porquê). Entre coleções corretas demais, inovações bacanas e os superestimados de sempre, escolhi alguns desfiles para mostrar.
A idéia é fazer uma série de posts – com três desfiles cada – trazendo a opinião de alguns jornalistas, além da minha (pretensamente humilde). Vale lembrar que moda não é ciência exata. Não existe certo e errado. Posso achar uma coleção linda enquanto o resto do mundo acha horrenda. E, aproveitando minha total liberdade pra dizer o que eu bem entendo, seguem as impressões sobre o que os estilistas andam fazendo em terra brasilis.. Concordem, discordem, manifestem-se!
NÃO ESTÁ MORTO QUEM SE REINVENTA: Samuel Cirnansck.
Lúdico e jovem. Samuel deixou de lado suas noivas-merengue apostou na vida noturna com pegada disco. Baladas possíveis para mulheres reais e elementos divertidos de um halloween adulto. Apostando em materiais tecnológicos – como poliamida, látex e ferro – a coleção veio marcada por tops elaborados, com estruturas feitas a partir de várias camadas de entretela e colas especiais. Lembrando esculturas, coloridas e sexies, essa profusão de elementos, não aniquila as formas femininas. Através de comprimentos mini e apreço pela forma “violão”, tudo fica parecendo divertidamente sensual.
Contudo, o cenário me pareceu literal demais. As abóboras mal feitas, realmente assustaram. Quanto à falta de vestido de noiva no final? As vezes o príncipe encantado não aparece. Nesse caso, a mulher Cirnansck já pode ir “sensualizar” na boate.
Andam dizendo por aí…
- A doce travessura de Cirnansck não agradou ao André Rodrigues (FFW) que fez alusão ao trabalho de Jean Charles de Castelbajac, como suposto inspirador de copycat. Ele também criticou a aparência gaguística de um dos vestidos (aliás, na coleção passada, o mesmo André havia elogiado a aproximação do estilista com o Universo Gaga). Não concordo com ele! JCDC se utiliza de ícones pop e abusa do tecnicolor (magnificamente), no entanto, ele não é detentor dos direitos autorais de nenhum desses dois elementos. Cirnansck continuou sendo o mesmo exímio construtor de siluetas, apenas partiu de um ponto diferente. Muito mais contemporâneo do que de costume, nem por isso pouco criativo.
- Regina Valadares (Elle) descreveu, descreveu e descreveu. O que ela achou? Não faço a menor idéia.
- Já Regina Guerreiro (UOL) disse que Samuel finalmente acertou a mão e inovou, dando uma “sacudida” na moda, assim como Giani Versacce fez nos anos 80, com a moda disco, complemento Regina, com a propriedade de quem tem anos de experiência e sabe bem o que diz.
- No Petiscos, Adriane Hagedorn confundiu as coloridas calças de vinil com as já saturadas wet leggings. Calma gente, nem tudo que reluz é cirré!
Desconcertante, surpreendente, fresco, e sobretudo travesso – mas com algumas notas de açúcar. Não vai faltar inspiração para o próximo 31 de outubro.
NEM SEMPRE SE PODE SER DEUS: Osklen.
Calças com ares de rede de pesca, ceroulas em lavagens duvidosas, drapeados e sobreposições, tudo isso em uma cartela de cores que ia do branco ao azul marinho. Rainbws cativantes, estampas de paetês, moletons em modelagens surpreendentes… tudo isso é coisa do passado. A Osklen do verão 2011 vem editada, sem firulas nem peças especiais. Um fundo do mar literal e sem carisma. Cores frias e coleção idem.
Andam dizendo por aí…
- Renata Piza (Elle) lembrou que a coleção desperta vontades fáceis, talvez pelo caráter pouco conceitual do conjunto. No fim, a jornalista achou tudo parecido demais, “um tanto quanto repetitivo”.
- Para Erika Palomino (FFW), “A coleção Mergulho no Azul da Osklen se mostra, ao menos na passarela, um mergulho no imenso tédio.” E acrescentou: “a evolução da moda brasileira (e do próprio lifestyle made-in-Brazil) exige mais do que o trabalho de beneficiamento dos materiais e de t-shirts e calças ‘descoladas’.”
- A Família Petiscos limitou-se a descrever.
- Em uma poética descrição sobre a cartela de cores marítimas, espuma do mar e nós de marinheiro, Regina Guerreiro (UOL) quase me convenceu que a coleção era bacana. Mas dessa vez ficou difícil.
Acho esse hype em torno da Osklen meio exagerado, mas em todas as coleções sempre existia pelo menos uma peça especialmente marcante, uma estampa incrível, uma modelagem inusitada , um je ne sais quoi que unia tudo e transformava a corretude de Oscar em algo maior. No entanto, depois de várias temporadas com inspirações naturebas similares e um conceito de marca já estabelecido, a Osklen apareceu pasteurizada. E como disse a Palomino, entediou.
QUANDO A CONTINUAÇÃO NÃO DECEPCIONA: Rosa Chá.
Em sua segunda coleção para a Rosa Chá, Alexandre Herchcovitch reforçou a nova identidade da marca, proposta desde seu desfile anterior. A Rosa Chá vai muito além de beachwear conceitual. Conforme o estilista, a inspiração vem dos trajes usados em dança de salão. Com uma estruturação digna dos espartilhos modernos, estampas de aves e flores, transparências em recortes modernos, a coleção apresenta um bordoir florido.
Andam dizendo por aí…
- André Rodrigues (FFW) marcou bem a transição da Rosa Chá sob o comando criativo de Alexandre Herchcovith. Ele aponta o mix de produtos como a grande inovação do estilista. O jornalista lembra que a coleção como uma espécie de patchwork de tudo o que já foi produzido pela marca.
- Mari Rossi (Petiscos) foi só elogios ao desfile. “Alexandre surpreendeu mais uma vez”.
- Regina Valadares (Elle) explora referências ao passado e se deixa levar pela emoção: “a coleção curiosa só poderia ter sido criada por Alexandre Herchcovitch. Bravo!”
Visualmente linda, é uma coleção cheia de elementos femininos. No entanto, Herchcovitch ainda me incomoda um pouco na relação modelagem modernosa vs. corpo feminino. Basta reparar nos bojos dos sutiãs, que parecem não comportar sequer os peitinho-inhos das modelos. A cintura por vezes parece marcada em um lugar onde não se pode chamar de império, mas também não chega a ser a cintura real.
O feminismo deu lugar ao feminino e a lingerie, ao invés de ser queimada, agora é enaltecida.
Outros trios de SPFW, nos próximos posts.
Pri. | @all_ice
Criticar não ofende
10/06/10
Em meio às semanas de moda, vale lembrar os preceitos fundamentais de uma boa crítica de moda. Desde renomados jornalistas de moda até blogueiros de “modas e maquilagens”, todos opinam por algum motivo. Mas, afinal, o que vem a ser uma crítica de moda competente?
Acredito que uma resenha bem embasada dispensa qualquer diploma de jornalismo para se legitimar como tal. Porém, ela depende de estudo e conhecimento sobre o objeto em análise. A coleção, o universo, a história e o contexto da marca, além das tendências de moda vigentes.
No entanto, não raro, a crítica de moda é confundida com propaganda. A revista que publica anúncios de determinada marca ou mesmo o blog que recebe presentinhos de outra, possivelmente não tenham a isenção necessária para analisar determinada coleção. Publieditoriais ou post pagos não devem ser vistos como material editorial apto a distinguir o bom do ruim, mas sim, mero conteúdo de marketing, produzido por quem possui interesse na divulgação da marca.
Vale lembrar: Crítica não é release e o crítico não deve encarar o papel de assessor de imprensa da marca sob análise.
Em novembro do último ano, no Pense Moda, o filósofo Lars Svendsen falou sobre o papel do crítico. Para ele, uma boa análise deve passar por quatro pilares:
- Descrição – Significa dizer como é a criação e como as partes se encaixam. De que forma cor, corte, estampa e textura trabalham juntos?
- Comparação – Mostrar similaridades e diferenças em relação às outras criações.
- Contextualização – Inserir a coleção dentro de um momento baseado no trabalho do designer, em sua inspiração e no que está ao redor culturalmente
- Interpretação – Objetiva responder à pergunta: “Qual o significado disso?”. A resposta varia muito. Algumas criações são mais ricas em conteúdo interpretativo do que outras.
Segundo Svendsen, a análise deveria ser, acima de tudo, um exercício de distinções. Um treinamento para que o olhar possibilite o julgamento através de comparações.
Críticos de moda sérios e tarimbados sabem que não escrevem para agradar, mas para fazer girar uma indústria poderosa. Essa mesma indústria que move bilhões, modifica valores culturais e artísticos, além de evoluir o pensamento da humanidade através da construção social de sua imagem e da identidade. Em outras palavras, o papel do crítico – seja ele jornalista ou blogueiro – deve levar em conta a dimensão do que está sub judice.
Se os blogueiros trouxeram uma grande quantidade de lixo à internet, também levantaram uma discussão que era sempre abafada: o que importa em um bom jornalismo de moda? Além disso, trouxeram o frescor de novos olhares que no fundo, com erros e acertos, fazem a roda da moda continuar a girar.
Um bom exemplo é a Tavi, blogueira respeitadíssima no alto dos seus (eternos) treze anos. A menina usou um laço gigantesco na cabeça enquanto assistia ao último desfile de Alta-Costura da Dior, na primeira fila! A inovação atrapalhou a visão de jornalistas veteranos que se espichavam para enxergar alguma coisa atrás de seu indefectível acessório.
Enquanto alguns blogs ganham espaço a partir de uma visão nova e despretensiosa do mercado, outros dispensam sua maior vantagem – a liberdade da independência – para puxar o saco de marcas que lhes dão “presentinhos” ou ingressos para “eventinhos”. Por essas e outras, acho muito complicado que o Brasil imite os modelos estrangeiros e acabe dando espaço demais para jovens deslumbrados por qualquer “mimo” deixado na tão disputada primeira fila.
Por conteúdo crítico e sem comprometimento por qualquer jabá,
Pri. | @all_ice








































