Questão de Gênero – Parte II
O gênero feminino evoluiu. Saiu da casca. Buscou atribuições em outros universos. Permitiu-se absolutamente tudo e, hoje, está mais amadurecido e menos ansioso em provar que pode. Aliás, provou que pode ser o que quiser sem perder a suavidade. É neste equilíbrio entre a força e a delicadeza que habita a mulher atual (e não só a mulher, mas, também, os gays que incorporaram características do feminino).
Le Smoking, 1966, por Yves Saint Laurent
Mas e quanto a eles, os homens tipicamente machos-alfa, provedores, testosterona puro? Como estão lidando com as atribuições do seu próprio gênero?
Creio que eles estão se reestruturando, de alguma forma. Tentam nos acompanhar (e todas as nossas novas exigências) e estão aprendendo, também, a usar a moda a favor disso. O rompimento de conceitos nunca será tão visceral quanto foi o nosso, até porque os homens nunca estiveram em uma situação opressiva e de submissão consentida, mas nem por isso menos interessante.
No último SPFW, João Pimenta fez sua estréia no evento trazendo justamente isso: um encontro entre os gêneros masculino e feminino onde detalhes delicados, cintura mais alta e ajustada, laçarotes, rendas e silhuetas-fetiche lembrando espartilhos ganharam uma forma viril e inegavelmente sensual. Essa coleção representou, no meu olhar, um novo homem. Sabe aquele cara que consegue ser sensível e protetor? Que chora em filmes dramáticos, que se importa com o que veste, que compreende o que se passa na nossa complicada cabecinha? Eu, pelo menos, imaginei esse homem ao assistir o desfile.
O emocionante desfile de João Pimenta
[Fonte: Portal FFW]
Apropriar-se do guarda-roupas masculino tornou a mulher segura para ganhar o mundo e lhe deixou natural e confortavelmente sexy. Por que com o homem seria diferente?
Lady Gaga (até segunda ordem) e Shirley Mallmann travestidas: sexy, heim?
Porque ao fazer a inversão e se perguntar se um homem trajando peças do guarda-roupas feminino seria sexy para o nosso olhar a resposta é que, provavelmente, não seria.
A gente só ia conseguir ver um homem travestido de mulher, o que é até engraçado e divertido, pelo menos aqui, na sociedade brasileira, de valores ainda tão engessados.

Na Europa alguns já aderiram. Conseguem imaginar um brasileiro, típico pai de família e executivo de uma grande empresa usando scarpin com meia calça?
E talvez seja isso que justamente falte aos nossos homens: um pouco mais de liberdade para ser e um pouco menos de obrigação em parecer. Por outro lado se a gente levou séculos para adquirir esse “direito”, não dá para querer que tudo seja para ontem. Mas a jornada já teve seu início, com isso podemos contar.
(Parêntese para Marc Jacobs, que é lindo, muito sexy e usa saias – mas comporta a homossexualidade, o que não faria dele uma exceção dentro do meu discurso).
Ai ai…
[Fonte: Delírios de Fashionista]
Fê. | @fernandajaques
| Print article | This entry was posted by Fernanda Jaques on 4 de julho de 2010 at 13:15, and is filed under Social trends. Follow any responses to this post through RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta ou fazer um trackback do seu próprio site. |



















há 2 meses atrás
Quanto à questão de não termos sofrido opressão, acho que é algo a se considerar. Penso que, diferente das mulheres, a opressão sobre os homens era sofrida e incentivada por eles próprios.Esse estereótipo de rigidez, sensatez, força e “macheza”, regra por tantos anos em nossas civilizações ocidentais, foi sendo passado de geração a geração por tanto tempo que ninguém nunca parou para pensar em outras possibilidades. Exagero meu, claro que existiram homens que viviam e afirmavam essas novas possibilidades do que se considera “ser homem”, mas a imagem do “macho incorruptível” continua aí. Com moldes diferentes para cada época e região, mas continua.
É inegável que hoje, mesmo timidamente, essas novas “vertentes” do homem são mais consideradas do que há algum tempo atrás. E é claro que, mesmo com essa “abertura de pensamento”, ainda tem muito o que avançar.
As vezes eu penso comigo que, por sermos criados desde criança com essa lógica binária ( ou é ou não é. ou é homem ou é mulher. ou é ruim ou é bom), fica meio difícil não criticar algo que fique nesse meio termo, nessa ambiguidade que não dá pra categorizar com os meios dos quais dispomos.Talvez por isso exista essa idéia de que a apropriação masculina do guarda-roupa feminino seria algo, no mínimo, hilário.
Se bem que se pensarmos em algumas subculturas japonesas, tem pencas de garotas se babando por homens praticamente travestidos de mulher.
Mas o Japão é toda uma peculiaridade né? rs
PS.: Desculpe o texto longo, mas faz tempo que queria um post que abordasse essa questão dos gêneros, ai me empolguei :/
há 2 meses atrás
Imagina, adoro comentários longos!
Gosto muito de pesquisar relações de gênero e a função da moda nisso tudo.
Ainda mais agora que não existem mais papéis fixos e todo mundo pode ser o que quiser.
Mas concordo, tem muito ainda que mudar, principalmente aqui no Brasil, onde (apesar de já ter mudado bastante) o modelo que predomina ainda é o tradicional.
Volte sempre!