Artigos com o marcador crítica de moda
Discutindo moda no papel
26/07/10
A blogosfera estava precisando de algo fora da sua esfera. No anseio pela novidade, um clássico foi reinventado: com um cheirinho de anos 90, mas mil possibilidades digitais.
Assim nasceu o Edição de Luxo, com essa vontade de andar na contramão (que o Trapo adora) e fazer diferente, pois o igual estava nos dando um baile de cansaço.
O espírito crítico deste blog nos trouxe a honra de fazer parte do segundo número do Edições de Luxo, este zine (sim, zine!) organizado pelo duo de luxo: Aline Botelho e Thiago Felix.
A segunda edição é um especial sobre crítica de moda na qual participamos com o texto “Criticar é preciso, a moda é imprecisa”. O zine ainda conta com a contribuição textual do estilista Dudu Bertholini e uma entrevista super bacana com Luigi Torre.
Fica nossa dica de leitura, para começar a semana com um olhar mais apurado e menos medroso sobre a moda e sobre o mundo, que de superficiais nunca tiveram nada.
Para seguir o zine pelo twitter: @edicoesdeluxo
Fê. | @fernandajaques
“Blogueiro” já é ofensa?
27/06/10
Muito já se falou sobre as diferenças entre blogueiros de moda e jornalistas de moda, mas o assunto parece não ter fim. A discussão sempre acaba levantando questões sobre o poder de crítica. Quem pode emitir opinião sobre o trabalho dos estilistas? Alias, o criador é um ser imaculado acima do bem e do mal? Seria falta de respeito gostar, ou não, de determinada coleção sem o aval de um grande veículo ou, no mínimo, um diploma de jornalismo?
Depois do São Paulo Fashion Week, Erika Palomino, editora do portal FFW, escreveu um texto ótimo sobre crítica de moda (Pensata da Palô #15: considerações sobre a temida crítica de moda). Erika trabalha há vinte anos com jornalismo de moda, porém não tem formação acadêmica. Talvez a falta de um pedaço de papel atestando sua “habilitação em jornalismo” seja responsável por grande parte de sua lucidez e coerência. Na pensata em questão, ela falou sobre os efeitos das críticas na consciência dos estilistas, enfatizando que o principal papel da resenha é nortear a indústria,“o consumidor final pouco liga se, no pós-desfile, o/a jornalista xis gostou ou não do desfile”. Resumindo: maturidade faz a gente entender que não é Deus! Em momento algum ela utiliza a palavra blogs. Contudo, deixa claro que novas vozes são bem vindas. Vale transcrever outro trecho:
“O peso de quem escreve importa, claro. Porém, num país de história de moda recente como o Brasil, é preciso dar voz às novas gerações de resenhadores, e deixá-la se exercitar. Ninguém começa acertando sempre, da mesma forma como bons e consolidados estilistas também são passíveis de erros.”
Na mesma semana, Renata Piza (editora da Elle) publicou um texto intitulado “Por um bom jornalismo de moda”, onde tratou das diferenças entre jornalistas e blogueiros. Em uma generalização demasiada, ela disparou: “todos sabemos que a maioria dos blogs rouba material alheio, especialmente fotos”. A jornalista acha que o “gosto não gosto” não é suficiente, é preciso fazer relações e apresentar referências. Impossível não concordar com o último ponto, mas quem garante que um blogueiro não tem as condições necessárias para fazer as devidas conexões?
Vale lembrar que entre se expressar e ser ouvido existe um grande abismo. Por exemplo, se uma blogueira das modas & maquilagens – do tipo fã de neologismos e diminutivos, seguidora de promoções e fofoqueira “baphônica” – disser que a última coleção da Neon é “feia”. Ou então, que jamais usaria o vestido transparente, com a mata atlântica de fora. Qual a relevância disso? Quem irá respeitar a opinião? Alguém com tanta bagagem fléxion quanto a tal blogueira, no máximo! Mas, convenhamos, a cliente Neon deixará de comprar peças da marca? Dudu e Rita ficarão inconsoláveis? Paulo Borges irá bani-los do próximo SPFW? I don’t think so.
Os blogs realmente têm influência direta no sucesso de uma coleção? Me parece que os jornalistas de moda andam superestimando a função comercial da crítica, como disse a própria Erika.
Os dois textos citados acima foram copiosamente retuitados. Ambos, inclusive, por um grande número de blogueiros e jovens aspirantes a críticos/jornalistas de moda. A revista Elle e o portal FFW têm tanto prestígio que, mesmo com uma passada de olhos no texto, as pessoas amam cada linha (?). Agora, pensando mais a fundo, o baixo critério na valoração dos textos se deve à qualidade, propriamente dita, ou aos veículos onde eles se encontram? Ainda que o segundo texto ofenda toda uma classe, vários de seus componentes gostaram muito do que leram. Aliás, espero que realmente tenham lido na íntegra. E, se só eu percebi equívocos absurdos de abordagem, por gentileza me avisem.
Então, não há motivo para pânico! Qualquer resenha, embasada (ou não), cheia de referências (ou não), crítica (ou não), só terá considerável relevância quando impressa em uma revista de lombada quadrada e de nome conhecido ou hospedada num grande portal destinado à moda. Esses cenários passam maior credibilidade do que um blog de template padrão e escrito por um quase anônimo.
Porém, ainda que os blogs sejam preteridos às mídias tradicionais, é preciso ficar atento às distinções entre eles. Cada revista – que possua alguma seção destinada à moda – tem sua abordagem peculiar. Elle, Manequim, In Style, Criativa, Tititi, Capricho, Minha Novela, Vogue, Gloss… todas – guardadas as devidas proporções – falam sobre moda. No entanto, não possuem o mesmo direcionamento, tampouco profundidades equivalentes. Então, porque os blogs deveriam ser encarados da mesma maneira?
Existe muito lixo na blogosfera, é fato. Blogs que sobrevivem de promoções, propaganda de produtos e reprodução de releases, são qualquer coisa, menos veículos de moda. Todavia, tem gente muito bacana com opiniões coerentes que realmente produz conteúdo original. Trata-se de uma minoria, mas que merece ser respeitada. Antes que o termo “blogueiro” vire ofensa, é preciso separar os “furtadores de conteúdo” daqueles que realmente apresentam um olhar diferente, dificilmente encontrado no mainstream (tão atrelado aos interesses de seus anunciantes).
Quando um jovem estilista começa a vender camisetas aos amigos, todos acham ótimo. Então, como condenar os aspirantes a jornalistas de moda (ou de política, futebol, economia, culinária…) em pleno exercício da publicação?
Ter um blog é uma das melhores maneiras de promover a pesquisa e exercitar a edição. Ninguém aprende a escrever apenas lendo. Crítica de moda não é função regulamentada por lei, ao contrário do que alguns gostariam. Portanto, qualquer um pode fazê-la (nesse caso, é a credibilidade que fará a diferença). Lógico, convém pesquisar, buscar referências, estudar o assunto, se instruir de várias formas, como indicaram ambas as jornalistas. Mas, pelo que tenho visto por aí, quem não tiver paciência para tanto, continuará sorteando kit de maquiagem ou sapato de marca popular.
Aos jornalistas, indico Suzy Menks, Regina Guerreiro, a própria Erika Palomino, Cathy Horyn, Alcino Leite Neto e Carine Hoitfeld como modelo. Olhem para cima. Se inspirem. Nos inspirem! E, se forem copiados, tomem como o mais sincero elogio. Aqui nesse blog, garanto que jamais serão, não sem os devidos créditos e contexto relevante. ;D
Nenhum blog-porcaria vai colocar o jornalismo na berlinda, assim como nenhum “analfabeto” tomará o emprego de um jornalista com diploma. Porém, algo me diz que todo esse temor nada tem a ver com analfabetos, muito menos com blogueiros-porcaria.
Pri. | @all_ice








