Artigos com o marcador Dudu Bertholini
Discutindo moda no papel
26/07/10
A blogosfera estava precisando de algo fora da sua esfera. No anseio pela novidade, um clássico foi reinventado: com um cheirinho de anos 90, mas mil possibilidades digitais.
Assim nasceu o Edição de Luxo, com essa vontade de andar na contramão (que o Trapo adora) e fazer diferente, pois o igual estava nos dando um baile de cansaço.
O espírito crítico deste blog nos trouxe a honra de fazer parte do segundo número do Edições de Luxo, este zine (sim, zine!) organizado pelo duo de luxo: Aline Botelho e Thiago Felix.
A segunda edição é um especial sobre crítica de moda na qual participamos com o texto “Criticar é preciso, a moda é imprecisa”. O zine ainda conta com a contribuição textual do estilista Dudu Bertholini e uma entrevista super bacana com Luigi Torre.
Fica nossa dica de leitura, para começar a semana com um olhar mais apurado e menos medroso sobre a moda e sobre o mundo, que de superficiais nunca tiveram nada.
Para seguir o zine pelo twitter: @edicoesdeluxo
Fê. | @fernandajaques
Moda Insights – Neon
11/05/10
Dudu Bertholini e Rita Comparato são dois librianos que se complementam. Com apenas 15 dias de diferença de vida (fato que Dudu adora salientar), esses criativos se uniram para dominar o mundo da exuberância fashion. Colegas na Faculdade de Moda Santa Marcelina, a dupla aconteceu quase que por acaso. Enquanto Rita direcionava sua carreira para a modelagem, Dudu preferia dedicar toda sua criatividade para o styling. O primeiro trabalho em parceria surgiu no TCC da Rita, para o qual Dudu criou acessórios que reproduziam as linhas da modelagem – coerência é uma de suas principais características, desde sempre!
O segundo trabalho como dupla – este derradeiro – foi num editorial clicado pelo fotógrafo J.R. Duran. Dudu assinava o styling das fotos e chamou Rita para produzir algumas peças. Juntos eles fizeram dois maiôs de paetês e, a partir de então, resolveram levar a parceria a diante, confeccionando “maiôs para a cidade” – peças que permeiam suas coleções até hoje.
Era tudo muito artesanal. Cada maiô tinha uma modelagem própria, explica o falante (e gestual) Dudu Bertholini, que também deu a dica:
“Boa idéia é aquela que tem realização, comece com o recurso que tem em mãos, é esse o melhor caminho” – e quem melhor do que eles para indicar o melhor caminho?
A Neon iniciou com muito trabalho, mas sem expectativas megalomaníacas, demorando para se tornar a principal fonte de sustento dos estilistas. Eles encaravam a idéia como uma “opção criativa de trabalho”, um projeto alternativo para mostrar a cara com total liberdade.
Tamanha originalidade encantou Patrícia Fields, quando a Neon ainda engatinhava. A figurinista acabou comprando algumas peças, o que resultou em um show room em Nova Iorque (e em Tókio, na seqüência) além de um look na capa da revista Soma. Isso tudo apenas na primeira coleção!
Dudu e Rita tiveram mais ousadia do que pretensão. Contrariando a todos que só apontavam as dificuldades, eles resolveram criar estampas exclusivas na própria lycra. As primeiras pessoas que souberam da idéia acharam que eles estavam loucos, isso porque o tecido não aceita o silk tão facilmente. Mas o resultado foi excelente e o nome Neon também foi impresso na estampa, provando que a idéia da marca era possível.
Neon, na definição de Dudu, é um nome curto, simples e iluminado. Não é a toa que ele sempre acaba aparecendo nas peças, desde estampas até vazado em máxi-paetes.
Orgulhosos por resgatar a maneira artesanal de fazer estampas, eles chamaram vários artistas, cujos desenhos foram vetorizados e deram origem à estampas incríveis que já fazem parte da personalidade Neon. Nomes como Fabio Gurjao (famoso pela estampa de falcão usada no figurino de Ivete Sangalo) e Goya Lopes (expert na pintura à mão) já imprimiram sua arte nos tecidos da marca. Por possuírem um vasto acervo de estamparia, quando mudam o tecido os desenho são revisitados de forma inteligente e acabam ganhando uma cara totalmente nova.
Com um estilo autoral, a marca não muda a cada estação. Dudu explica que a mulher Neon tem “elegância com senso de humor” e Rita Comparato é a personificação exata dessa estética – com boca pintada, unhas em tons fortes, poses com a mão na cintura. O contraste é sempre presente!
A dupla cria todas as peças junta. No entanto, cada estilista tem uma função específica dentro da empresa. Dudu é o comunicador (tarefa que desempenha com evidente desenvoltura), ele sabe como ninguém como usar sua retórica nas vendas – Rita o apelidou de “Dudu BLABLAtolini”. Já sua parceira é mais prática, cuida da modelagem e foca no produto. Com personalidades que se complementam tão bem, a parceria não poderia dar mais certo!
Mas nem tudo foi tão fácil nessa trajetória. A Neon demorou para alinhar sua coleção de inverno à expectativa dos compradores. Eles enfrentaram várias dificuldades para inserir suas roupas no atacado, mesmo com desfiles sempre muito elogiados. Em meio a erros e acertos, duas mentes criativas – movidas pela mesma paixão por moda – tiveram que aprender como colocar sua marca no mercado.
Desde o início, seus desfiles sempre ocorrem em locações mirabolantes. O primeiro foi na casa do próprio Dudu, e mesmo assim contou com presenças ilustres como Costanza Pascolato e Carol Trentini no catwalk. O Teatro Oficina – que é a Meca do teatro hippie – também ajudou a criar a atmosfera ideal para que a marca se firmasse através de sua vocação étnica, chamando a “tribo da neon”.
Na coleção Verão/2005 eles apostaram no cruzamento da cidade com a praia, promovendo o contraste entre o formal e o informa, entre a sauna e a praia. Paletó com toalha na cabeça, um híbrido entre chinelo e mocassim deram o tom da coleção. Tudo com uma “elegância metida mesmo” definiu Dudu. Foi a primeira vez que usaram seda. No início achavam que era loucura, depois descobriram que essa seria a grande virada comercial da Neon. A partir daí as grandes boutiques começaram a entender e comprar suas roupas.
Nesse mesmo desfile eles começaram uma parceria com Cristine Ufan, uma japonesa que é designer de assessórios, que ensinava misses a se portar.
Na coleção seguinte (Inverno/2005) a marca explodiu comercialmente, a partir de então a Neon virou o trabalho principal na vida de Rita e Dudu. Nesse inverno eles conseguiram vender mais do que o dobro do que vendiam em outras coleções.
No Verão/ 2007 eles fizeram uma coleção toda inspirada no samba, tema que possui forte ligação com a história da marca. Sambistas são como eles, passam a vida toda usando terno de linho branco. O estilo nunca muda!
O estilo não muda a cada seis meses, ele se constrói ao longo de uma vida. Estilo é moda com alma, a essência é sempre a mesma. (Dudu Bertholini)
A música “No surprises” do Radiohead, serviu de trilha sonora para o desfile – numa divertida alusão às recorrentes críticas sobre a marca, justamente pela manutenção de elementos invariáveis. E, ironicamente, nessa coleção “todos visualizaram uma super inovação”, explica o desencanado estilista.
Dudu parece sincero ao afirmar que não sofre com as críticas. Ambos têm segurança e confiam no seu trabalho, por isso não pretendem mudar apenas para agradar aos críticos. Mesmo assim, eles reconhecem a validade dessa análise
“Críticas negativas têm sempre algum ponto válido, que se bem absorvidos podem causar evolução. Já quando a crítica é muito positiva é preciso desconfiar”, ensina Bertholini.
A Neon tem um target super democrático. Veste mulheres de 15 a 70 anos. Suas peças vão do PP à amplos kaftas que servem em qualquer corpo, sem restrições. O fato é motivo de orgulho para os criadores, que tanto pregam essa liberdade-democrática na moda.
Questionados sobre a relação da marca com o movimento da tropicália eles explicaram que o paralelo é super possível. A Neon é pura liberdade nas formas e nas cores, o modo de expressão é livre, assim como na Tropicália.
A ligação com o tropicalismo tem tudo a ver com ABRAVANAÇÃO, movimento criado pelo artista plástico (e BFF da dupla) Rick Castro, que significa libertar, expressar seu “eu interior”! Isso tem a ver com usar roupas espalhafatosas, fazer gestos largos, não ter vergonha de parecer ridículo – e isso tem tudo a ver com o que faziam nossos saudosos tropicalistas.
A última pergunta da noite – que teve cara de primeira – foi sobre como começou a relação dos dois com a moda.
Para Rita, o contato foi através da mãe, que era dona da Acessórios Modernos, marca famosa nos anos 80. Já Dudu, explicou que desde muito criança se emocionava com gente que se comunicava de uma maneira livre através da moda.
Alguém duvida que ele seguiu seus exemplos de liberdade-fashion à risca?
Pri.












