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Questão de Gênero – Parte II
04/07/10
O gênero feminino evoluiu. Saiu da casca. Buscou atribuições em outros universos. Permitiu-se absolutamente tudo e, hoje, está mais amadurecido e menos ansioso em provar que pode. Aliás, provou que pode ser o que quiser sem perder a suavidade. É neste equilíbrio entre a força e a delicadeza que habita a mulher atual (e não só a mulher, mas, também, os gays que incorporaram características do feminino).
Le Smoking, 1966, por Yves Saint Laurent
Mas e quanto a eles, os homens tipicamente machos-alfa, provedores, testosterona puro? Como estão lidando com as atribuições do seu próprio gênero?
Creio que eles estão se reestruturando, de alguma forma. Tentam nos acompanhar (e todas as nossas novas exigências) e estão aprendendo, também, a usar a moda a favor disso. O rompimento de conceitos nunca será tão visceral quanto foi o nosso, até porque os homens nunca estiveram em uma situação opressiva e de submissão consentida, mas nem por isso menos interessante.
No último SPFW, João Pimenta fez sua estréia no evento trazendo justamente isso: um encontro entre os gêneros masculino e feminino onde detalhes delicados, cintura mais alta e ajustada, laçarotes, rendas e silhuetas-fetiche lembrando espartilhos ganharam uma forma viril e inegavelmente sensual. Essa coleção representou, no meu olhar, um novo homem. Sabe aquele cara que consegue ser sensível e protetor? Que chora em filmes dramáticos, que se importa com o que veste, que compreende o que se passa na nossa complicada cabecinha? Eu, pelo menos, imaginei esse homem ao assistir o desfile.
O emocionante desfile de João Pimenta
[Fonte: Portal FFW]
Apropriar-se do guarda-roupas masculino tornou a mulher segura para ganhar o mundo e lhe deixou natural e confortavelmente sexy. Por que com o homem seria diferente?
Lady Gaga (até segunda ordem) e Shirley Mallmann travestidas: sexy, heim?
Porque ao fazer a inversão e se perguntar se um homem trajando peças do guarda-roupas feminino seria sexy para o nosso olhar a resposta é que, provavelmente, não seria.
A gente só ia conseguir ver um homem travestido de mulher, o que é até engraçado e divertido, pelo menos aqui, na sociedade brasileira, de valores ainda tão engessados.

Na Europa alguns já aderiram. Conseguem imaginar um brasileiro, típico pai de família e executivo de uma grande empresa usando scarpin com meia calça?
E talvez seja isso que justamente falte aos nossos homens: um pouco mais de liberdade para ser e um pouco menos de obrigação em parecer. Por outro lado se a gente levou séculos para adquirir esse “direito”, não dá para querer que tudo seja para ontem. Mas a jornada já teve seu início, com isso podemos contar.
(Parêntese para Marc Jacobs, que é lindo, muito sexy e usa saias – mas comporta a homossexualidade, o que não faria dele uma exceção dentro do meu discurso).
Ai ai…
[Fonte: Delírios de Fashionista]
Fê. | @fernandajaques
Questão de gênero – Parte I
29/06/10
Carinha simpática de Simone
Em 1949, ao afirmar que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher” [*], Simone de Beauvoir revolucionou toda uma geração de meninas crentes de que, em função de terem nascido com ovários, eram destinadas a ser e realizar um check list de coisas pra lá de boring (tipo lavar, passar, ter boas maneiras e muitos filhos).
Ao dar às mulheres, pelo menos no âmbito filosófico da coisa, o direito de pensar que poderiam desempenhar qualquer papel social, independentemente do sexo (já que o gênero e suas características são códigos sociais e não biológicos), ela largou uma coceira generalizada que possibilitou para nós, mulheres contemporâneas, o direito de escolha sobre o que queremos fazer e quem queremos ser.
Mas bem antes disso, Coco Chanel já era quem ela queria ser e fez o que nem todas nós conseguimos fazer hoje em dia (embora a ideia seja ótima): criou um império, obteve poder, fama, fortuna além, é claro, de muitos amantes (o que é bem importante, diga-se de passagem).
Certamente Chanel não teria contribuído tanto para a história da moda (e para a própria participação das mulheres na sociedade) se tivesse se casado e tido um bando de filhos. Pelo menos eu tenho certeza que não.
Coisas que só Mademoiselle Chanel poderia ter pensado: roupas com inspiração no masculino e toques mega delicados.
Agora, não se pode negar que o seu grande diferencial foi ter iniciado tudo isso “fantasiada” com peças da indumentária masculina e orientada por um falso self também cheio de características tipicamente másculas como a força, a ousadia e o exercício da liberdade.
Ela não se vestia de homem, veja bem. Até porque tinha o dom de deixar qualquer peça mais feminina com o seu amor por detalhes. Entretanto, é bem difícil acreditar que ela teria feito tudo que fez presa a um espartilho ou a quilos de tecido em forma de saia.
Ela deixou mais que provado que nossos pensamentos fluem melhor quando estamos confortáveis
Incorporar peças masculinas não garantiu para Chanel apenas um estilo singular, mas, também, uma mobilidade indispensável para qualquer ser humano que deseje trabalhar.
E não é que seu estilo ficou?
Claro que a moda sozinha não pode ganhar os créditos de um século de mudanças e transformações nos (muitos!) papéis que as mulheres vem desempenhando. Porém, na minha opinião, é muito óbvio que a partir desse “assalto” no guarda-roupas deles e da subversão da moda masculina a nosso favor, nos foi possível roubar muito além de calças.
[*] : Le Deuxième Sexe (O Segundo Sexo), 1949
Fê. | @fernandajaques














