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A moda é nude
23/08/10
O flerte entre moda e nudez provoca desejo
Mais do que qualquer montação conceitual, e mesmo em uma era pós-revolução sexual, a moda ainda consegue chocar com corpos desnudos. As marcas não precisam mais utilizar recursos como a sutileza ou a insinuação para expor seus produtos e identidade. Editoriais, campanhas publicitárias e capas de celebradas revistas têm, cada vez mais, explorado a nudez como forma de propor o novo.
Naked Supermodels
Tanto a objetividade quanto a permissividade da nudez estão sendo muito eficazes para o aumento das vendas e admiração dos consumidores, sempre ávidos por ousadia. Em se tratando de um mercado cada vez mais veloz e que demonstra claros sinais de saturação, buscar o novo é pré-requisito para a sobrevivência.
Lady Gaga sobrevive com o choque que causa a cada aparição, seja com looks montados, seja com looks enxutos, onde a própria pele é a protagonista.
Um dos momentos apoteóticos do último São Paulo Fashion Week, por exemplo, foi representado pela nudez frontal – até então inédita na semana de moda – no desfile da Neon. Sua profusão de pelos pubianos causou alvoroço e pareceu quase anti-nacionalista, afinal nosso país é famoso pelo Brazilian Wax.
A modelo precisou acrescentar um aplique de pelos pubianos para dar ênfase à ideia.
A nudez – mesmo sendo um contrasenso – impulsiona a indústria do vestuário. É o estilo de vida que está sendo ofertado, muito mais que uma peça de roupa ou acessório. Estilo de vida este, favorecido pelo interesse e curiosidade instigados pelo sexo. Como seres sexuais que somos, é quase impossível ficar indiferente a corpos nus e imagens fortes e provocativas. Somos levados a acreditar que o uso de certas marcas vai nos garantir o mesmo sex appeal dos modelos de corpos esculturais.
As campanhas estão cada vez mais atrevidas, abusando de criatividade e comprovando o quanto essa linguagem é lucrativa. Contudo, esse flerte entre a moda e o sexo vem acontecendo não é de hoje.
O fotógrafo Helmut Newton ficou conhecido por trazer a nudez e o fetiche para moda nos anos 1970, ápice de sua carreira que coincidiu com a plena efervescência do movimento feminista. Algumas feministas entusiastas até o acusavam, equivocadamente, de misógino. Ah, ledo engano… Helmut amava as mulheres e sua fotografia exaltava uma devoção inquestionável à beleza feminina. A seu modo sofisticado, ele quebrou tabus sexuais da época com suas musas sempre altas, curvilíneas, saudáveis e com seios fartos, o tipo de mulher que agrada o olhar e não representa o “padrão-cabide”, comum no mundo da moda.
A Diesel conseguiu criar uma campanha irreverente e quase não extrapolou o limite entre o sexy e o pornográfico, quase…
A marca Calvin Klein soube marcar sua personalidade com controvérsias. Desde Brooke Shields, ainda adolescente, e o “não há nada entre mim e minha calça CK”, a marca pontualmente tenta balançar as estruturas morais da América com campanhas altamente sexualizadas. Ora explorando o desejo, ora expondo corpos seminus, a CK soube transformar a nudez tanto em marca registrada quanto em lucratividade.
Aos 15 anos, Brook Shields exaltava sensualidade, mesmo estando coberta de roupas, para os padrões atuais.
Eva Mendes apimentando ainda mais a campanha de underwear da CK.
O estilista americano Tom Ford adora brincar com a nudez e carregar na dose de erotismo em suas campanhas. Em 2002, quando ainda era diretor criativo da Yves Saint Laurent, causou polêmica no lançamento do perfume M7, onde o produto aparecia ao lado do pênis do modelo, que, claro, estava nu.
Quem não compraria um perfume com cheiro de sexo?
O trabalho do fotógrafo Terry Richardson é outro sinônimo de buzz. O duo criativo entre ele e Tom Ford apresentou, na última campanha do estilista, imagens extremamente sexies e apelativas, nas quais a nudez frontal e o sexo explícito causaram até a proibição das fotos em revistas e jornais europeus.
Alguém ainda tem dúvida de que a nudez nos atrai enquanto o sexo vende?
Aliás, sexo não só vende como também é um terreno artístico-filosófico muito fértil (com trocadilho). Essa matéria foi escrita a quatro mãos e saiu na Unit Magazine N8. A Edição é um especial “Erótica” e está maravilhosa. Vale muito a pena conferir as outras matérias por aqui.
Fê. | @fernandajaques e Pri. | @all_ice
Questão de Gênero – Parte II
04/07/10
O gênero feminino evoluiu. Saiu da casca. Buscou atribuições em outros universos. Permitiu-se absolutamente tudo e, hoje, está mais amadurecido e menos ansioso em provar que pode. Aliás, provou que pode ser o que quiser sem perder a suavidade. É neste equilíbrio entre a força e a delicadeza que habita a mulher atual (e não só a mulher, mas, também, os gays que incorporaram características do feminino).
Le Smoking, 1966, por Yves Saint Laurent
Mas e quanto a eles, os homens tipicamente machos-alfa, provedores, testosterona puro? Como estão lidando com as atribuições do seu próprio gênero?
Creio que eles estão se reestruturando, de alguma forma. Tentam nos acompanhar (e todas as nossas novas exigências) e estão aprendendo, também, a usar a moda a favor disso. O rompimento de conceitos nunca será tão visceral quanto foi o nosso, até porque os homens nunca estiveram em uma situação opressiva e de submissão consentida, mas nem por isso menos interessante.
No último SPFW, João Pimenta fez sua estréia no evento trazendo justamente isso: um encontro entre os gêneros masculino e feminino onde detalhes delicados, cintura mais alta e ajustada, laçarotes, rendas e silhuetas-fetiche lembrando espartilhos ganharam uma forma viril e inegavelmente sensual. Essa coleção representou, no meu olhar, um novo homem. Sabe aquele cara que consegue ser sensível e protetor? Que chora em filmes dramáticos, que se importa com o que veste, que compreende o que se passa na nossa complicada cabecinha? Eu, pelo menos, imaginei esse homem ao assistir o desfile.
O emocionante desfile de João Pimenta
[Fonte: Portal FFW]
Apropriar-se do guarda-roupas masculino tornou a mulher segura para ganhar o mundo e lhe deixou natural e confortavelmente sexy. Por que com o homem seria diferente?
Lady Gaga (até segunda ordem) e Shirley Mallmann travestidas: sexy, heim?
Porque ao fazer a inversão e se perguntar se um homem trajando peças do guarda-roupas feminino seria sexy para o nosso olhar a resposta é que, provavelmente, não seria.
A gente só ia conseguir ver um homem travestido de mulher, o que é até engraçado e divertido, pelo menos aqui, na sociedade brasileira, de valores ainda tão engessados.

Na Europa alguns já aderiram. Conseguem imaginar um brasileiro, típico pai de família e executivo de uma grande empresa usando scarpin com meia calça?
E talvez seja isso que justamente falte aos nossos homens: um pouco mais de liberdade para ser e um pouco menos de obrigação em parecer. Por outro lado se a gente levou séculos para adquirir esse “direito”, não dá para querer que tudo seja para ontem. Mas a jornada já teve seu início, com isso podemos contar.
(Parêntese para Marc Jacobs, que é lindo, muito sexy e usa saias – mas comporta a homossexualidade, o que não faria dele uma exceção dentro do meu discurso).
Ai ai…
[Fonte: Delírios de Fashionista]
Fê. | @fernandajaques
São Paulo Fashion Week e os opinativos – Parte final.
17/06/10
Os últimos:
REGIONALISMO URBANO: Ronaldo Fraga.
Inspirado no modernismo de Mário de Andrade – mais precisamente, no livro “O turista aprendiz” – Ronaldo Fraga apresentou uma coleção urbana, mas com as raízes na cultura brasileira. Sem tantas cores e com um conceito subjetivo, as roupas foram o grande destaque. Bordados delicados e resultado feminino.
Eles dizem:
- Regina Guerreiro (UOL) lembrou da inspiração na viagem pelo Brasil feita por Mário de Andrade, a qual deu origem ao livro “O turista aprendiz”. O estilista também se considera um pouco turista aprendiz. No entanto, Regina discorda: “Ronaldo é um sacerdote!”. A jornalista falou sobre a presença de trabalhos manuais sem nenhum ranço de caipirismo. Além disso, elogiou as bermudas e luvas feitas de paetês colados no corpo.
- Luigi Torre (FFW) fez uma resenha ótima. Ronaldo Fraga, segundo Luigi, “troca o espetáculo pelo foco no produto, adapta o passado ao presente, e transforma o tradicional em contemporâneo.” Parece que esse é seu grande mérito, em especial nessa coleção.
- Laura Ancona Lopez (Elle) descreveu.
- Adriane Hagedorn (Petiscos) não aprovou as bermudas e luvas de paetês, mas gostou do efeito “chuvinha” quando elas se descolavam. Limitou-se à descrição, sem ódios nem amores.
Original, criativo e mesmo assim usável.
O CONTROVERSO: André Lima.
No mundo autista de André Lima, a roupa é espetáculo. Aonde ir com ela? Essa é uma preocupação que não nos cabe. Sua cliente deverá ter dinheiro suficiente para não se preocupar com esse detalhezinho tão burocrático. Metros e metros de tecidos deixaram o New Look do Dior parecendo uma lição de economia.
Eles dizem:
- Regina Guerreiro (UOL) resumiu em um termo: desastre. “Quem sai vestida desse jeito? Aonde ir assim?”. Sincera e enfática, Regina achou a coleção horrorosa. Para ela, André Lima divide o posto de pior da temporada, ao lado de Fause Haten. “Fracos, alegóricos, exacerbados… grotesco.”
- Erika Palomino (FFW) é do time da Regina: “Se todas nós tivéssemos onde ir com essas roupas, se fôssemos todas jet-setters, estrelas, artistas em festas loucas e rycas. Maximalista, extraordinário, hiperbólico, André Lima se descola (ou se desloca) cada vez mais do line-up, em sua viagem mais do que pessoal. Para o bem _e para o mal. E que o povo durma com o barulho de seu show.” A crítica é ótima, mas essa ‘ryqueza’ de neologismo katilênico só é legal no twitter (e olhe lá!).
- Regina Valadares (Elle) achou emocionante e lindo. “Mais do que bonitos, seus vestidos são imponentes, grandiosos, cheios de luz própria.” Não concordo, mas adoro quando alguém desce do muro na Elle.
Para quem não sabe bem o que achar, qualquer vestidão é espetáculo.
DESFILA PARA GISELE: Colcci.
Há alguns anos era a Cia Marítima que se beneficiava da imagem Gisele. Quem não lembra da legião de patricinhas com biquínis de Che Guevara em areias brasileiras? Gisele Midas é exclusiva da Colcci há seis anos. Ficou parada apenas um – em função da gravidez – e todos já comemoram seu “grande retorno”. Fernanda Tavares e Shirley Mallmann também desfilaram, alguém viu? Enquanto todas as resenhas só falam de Gisele, fica complicado lembrar da coleção.
Eles dizem:
- André Rodrigues (FFW) fez um texto ótimo exaltando todo o poder de Gisele. Colcci é Gisele. Sem ela, Colcci seria apenas Colcci. O que, no fim das contas, não é lá muito bom.
- Laura Ancona Lopez (Elle) enfatizou a referencia 60’s.
- Adriane Hagedorn (Petiscos) comentou sobre os gritinhos frenéticos provocados pela presença da uber. Ainda fez uma analogia das estampas de araras com as andorinhas da miu-miu.
Gisele, Gisele, Gisele, Gisele… e só.
Belo trabalho da equipe do ffw.com.br. Resenhas fundamentadas e críticas. O Petiscos – mesmo com sua linha editorial mais leve – trouxe boas observações. A Elle ficou devendo na opinião. Regina Guerreiro é musa eterna! Sem falsas amiguices, trouxe referências que só ela poderia ter lembrado e opinou sem medo.
ps. Todas as fotos do SPFW foram retiradas do ffw.com.br
Pri. | @all_ice
São Paulo Fashion Week e os opinativos – Parte 3.
15/06/10
Trio maravilha:
FIGURINO OU COLEÇÃO? Lino Vilaventura.
A lembrança mais emblemática que tenho do Lino Villaventura é uma capa da Caras com a Xuxa desfilando para a marca e exibindo – oficialmente – seus então “novos” seios. Isso aconteceu em 2000, e a “moldura” de tamanha obra cirúrgico-artística (sic) é tão atual quanto a coleção desfilada nessa edição do SPFW. A roupa de Lino é eterna!
A passarela, com listras pretas e brancas, promoveu um belíssimo mimetismo em op-art nos primeiros looks, o que me lembrou uma cena linda de ‘Qui êtes-vous Polly Maggoo?’ (filme sobre moda, super clássico dos anos 60). A referência original em Carmem Miranda, que estava presente em adereços para cabeça nada literais. “Quando se usa todas as cores, é impossível que algo não combine”, essa é a máxima do estilista.
Eles dizem:
- André Rodrigues (FFW) em uma gongada pertinente e sincera, declarou: “O desfile abre com uma promessa animadora de op art, em que as roupas se confundem com a passarela e vice-versa, mas o ânimo – ou melhor, a “Anima” da coisa – dura exatos quatro looks.” Até concordo em parte – gostaria de ver mais looks em P&B – mesmo assim, não consigo deixar de amar a coleção, que perpetua a coerencia eterna do estilista.
- Laura Ancona Lopez (Elle) descreveu.
- Adriane Hagedorn (Petiscos) discorreu sobre a coleção com base na inspiração em Carmem Miranda. Descreveu, mas trouxe referências.
- Regina Guerreiro (UOL) não fica em cima do muro nunca. Entre bonitices e cafonices, colocou o desfile no primeiro time. Regina elogiou os “patworks desvairados e complicados” e confessou que – a contragosto do próprio estilista – vê Lino mais como figurinista do que como estilista. Para ela, suas roupas teatrais mereciam estar no Metropolitan ou na Broadway.
Na tendência e na demência, prefiro quem cria a quem copia.
MERGULHO CHIQUE: Neon.
O batom vermelho das modelos já denuncia: enquanto o mundo pira em lábios verdes, pretos e azuis, a Neon se mantém firme em suas marcas registradas! Dudu e Rita perpetuam a essência da Neon desde a primeira coleção e mesmo assim conseguem se reinventar a cada estação. Com referência nos esportes náuticos, a Neon edita nas cores e aposta no navy. O cenário (uma piscina olímpica) continua sendo parte espetáculo Neon. Com a indefectível cintura marcada, a mulher Neon continua elegante. O neoprene aparece fino, os volumes são colocados nos lugares certos. As estampas são honestamente inspiradas em Yves Saint Lourent, mas nem por isso parecem cópias. A dupla jamais esquece do corpo que veste suas roupas. A modelagem é impecável e conversa bem com as formas femininas (Alexandre, oi?). Elegância sem caretice.
Eles dizem:
- Erika Palomino (FFW) sintetizou muita coisa em uma única frase: “Estamos vivendo não mais o momento do ineditismo, mas o da curadoria”. Genial, não? Referências e edição para todos!
- Renata Piza (Elle) exaltou o espetáculo, a moda como show. Em suas palavras: “Dudu Bertholini e Rita Comparato trocaram as salas frias da Bienal por uma piscina pública na Água Branca, já que o tema da coleção – surf versus náutico – tem mesmo muito mais a ver com água do que com concreto.” Sala fria com a Neon? Nunca vi, tampouco consigo imaginar.
- Regina Guerreiro (UOL) falou sobre as proporções modernas e maios chiquérrimos. Para ela o neoprene trouxe uma nova leitura da alta costura.
Todos amam e, nesse caso, é impossível ser do contra. Afinal, tem como não amar?
MARACATU POP: Amapô.
Festejos regionais E aplicações mil. Famosas pelas cores intensas, a dupla Pitty e Carô, dessa vez também surpreendeu com cores claras. Transparências, babados, bordados, recortes diagonais e franjas. Aliás, esse franjismo todo apareceu em um look típico de patinadora do gelo. Homem ou mulher, Maria Bonita ou Lampião todos festejam em trajes alegremente apropriados.
Eles dizem:
- Mari Rossi (Petiscos) foi só elogios e – com a proximidade usual de seus textos – ainda pediu o vestido da Carô emprestado. E quem não queria?
- Regina Valadares (Elle) descreveu e também achou tudo lindo.
- Luigi Torre (FFW) apontou a evolução técnica e de estilo da marca. Além disso lembrou dos contrapontos tradição x contemporaneidade, erudição x cultura pop presentes na coleção em uma ótima resenha.
Alegria cromática, trabalho consolidado.
Na sequência, o último (e atrasado) post do SPFW.
Pri.| @all_ice
São Paulo Fashion Week e os opinativos – Parte 2.
14/06/10
PELO CONJUNTO DA OBRA: Ellus.
Encantar com jeanswear não é tarefa tão simples, mas a Ellus – na medida do possível – conseguiu. A começar pelo backstage que invadiu a passarela, nas versões feminina e masculina. Com os dois desfiles acontecendo ao mesmo tempo, os homens roubaram a cena.
Fresca, tropical, com um pé no Havaí e os olhos nos tradicionais uniformes de marinheiro, a marca faz bonito no nicho que se propõe. As moças aparecem com moletons em recortes inusitados, jeans amassados, além de tecidos ultra femininos como cetins e musselines. Estampas florais, alfaiataria veranil, chapéus cheios de garbo, jeans lavados prometem uma modernidade de essência retrô até para os rapazes mais caretinhas.
Dizem por aí:
- Regina Guerreiro (UOL) achou “super pra cima e super bonitinho”. Para ela a coleção sai do terno e gravata sem transformar ninguém em fashion victium. Avessa aos supérfluos femininos, a jornalista tem se encantado pela moda masculina, no geral. Mesmo assim, achou que a presença de peças descosturadas e abotoamento com chifrinhos de osso deram um frescor às mulheres. Faz sentido.
- Laura Ancona Lopez (Elle) deu um panorama geral sobre a cenografia. No entanto, limitou-se a comentar os looks femininos. Também fez um paralelo com os calçados de Balenciaga, mas ignorou os rapazes – uma pena!
- Mari Rossi (Petiscos) descreveu as peças e o cenário. Criticou os docksides em formato de ancle boot que quase derrubou as modelos (algo que não percebi no vídeo). Na verdade, o que vi foram oxfords com saltos vertiginosos mas – definições a parte – eram desconfortavelmente belos.
- Erika Palomino (FFW) se encantou pela atmosfera fresh da coleção e lembrou que a marca fugiu de sua usual “urbanidade dark”.
Figurino “sombra e água fresca” até para os mais urbanóides!
QUANDO A ROUPA SE SOBREPÕE ÀS FORMAS DO CORPO: Alexandre Herchcovitch (fem.).
Cartela de cores divina e modelagem aclamada. Alexandre agradou novamente. Os ombros continuam quase tão marcados como no verão 2010 (inspirado no uniforme dos jogadores de futebol americano), mas agora aparecem em vestidinhos acetinados e fluidos. Estampas que lembram tetris e paintball, degradês em cores brilhantes, além de vestidos monocromáticos em tons lindíssimos, tudo isso pontuado por alguns looks pretos ao longo do desfile. No make, batons em um verde-desejo (esquisitismo que promete virar febre). Mas, antes que as makeup addicted entrem em colapso, já aviso: a tonalidade foi produzida por Celso Kamura e os batons não estão sendo comercializados.
Dizem por aí:
- Regina Guerreiro (UOL) acha que “são os vestidos mais lindos do mundo”. Para ela o molengo cetim lingerie lembra as camisolas das mamães. Regina viu uma aula de construção, com volumes no lugar certo, “as mangas não ficam na bobice de ser uma manga bufante, elas tem desenhos diferentes”, explica.
- Renata Piza (Elle) encantada com as cores e a modelagem, ela traçou um paralelo com a arte, acreditando que Alexandre brincou de “artista plástico”. Hm, não misturemos as coisas…
- André Rodrigues (FFW) também se mostrou atônito pela beleza das cores e discorreu sobre a explosão cromática em 90% de sua resenha.
- Adriane Hagedorn (Petiscos) começou elogiando a disposição das cadeiras, que deixavam os convidados mais próximos das modelos. Confesso que achei visualmente confusa a disposição de duas fileiras no meio da passarela. Ela bate na tecla da modelagem e diz que basta vestir uma peça do Alexandre para admirar sua “modelagem sem igual”. Talvez seja essa a lição de casa que me falta para entendê-lo.
Mulheres providas de peito, cintura e quadril, encarnem o cabide! A modelagem não valoriza o corpinho, mas as cores enchem os olhos de alegria.
THAT’S HOT, MAS NEM TANTO: Triton.
Franjas, plataformas, brilhos, babados e boleros. Com uma infinidade de elementos e na falta de edição, mais é sempre mais. A festa da Triton contou com a ilustre presença de Paris Hilton. A party girl veio lépida e fagueira com maquiador e cabelereiro a tiracolo (decisão controversa Paris, teu perucón não convenceu). Seu segundo look merece destaque: um vestido gigante, do segmento militarista, cheio de franjas, que mais lembrava uma cangaceira melindrosa.
Dizem por aí:
- Regina Guerreiro (UOL), super sincera, acha que “celebridade não resolve o problema de produto” e criticou duramente todo o desfile.
- Luigi Torre (FFW) achou que Paris Hilton foi uma “escolha difícil de entender”. Oi? Festa? Paris? Mídia? Captou Luigi? No fim, ele definiu “comercial, sem ser chato, ousado sem ser conceitual”.
- Regina Valadares (Elle), em cima do muro, apontou o desfile como um verão sem loucuras para mocinhas bonitas e bem comportadas.
Já entendi que franja é tendência, agora alguém me explica a estampa de unicórnio?
Pri. | @all_ice
São Paulo Fashion Week e os opinativos – Parte 1.
13/06/10
A cada seis meses, os grandes expoentes da moda brasileira apresentam coleções norteadas por tendências internacionais e geralmente com uma pegada bem comercial. Mesmo assim, ainda existem estilistas criativos que surpreendem em meio a queridinhos que são invariavelmente “adorados” (sabe-se lá o porquê). Entre coleções corretas demais, inovações bacanas e os superestimados de sempre, escolhi alguns desfiles para mostrar.
A idéia é fazer uma série de posts – com três desfiles cada – trazendo a opinião de alguns jornalistas, além da minha (pretensamente humilde). Vale lembrar que moda não é ciência exata. Não existe certo e errado. Posso achar uma coleção linda enquanto o resto do mundo acha horrenda. E, aproveitando minha total liberdade pra dizer o que eu bem entendo, seguem as impressões sobre o que os estilistas andam fazendo em terra brasilis.. Concordem, discordem, manifestem-se!
NÃO ESTÁ MORTO QUEM SE REINVENTA: Samuel Cirnansck.
Lúdico e jovem. Samuel deixou de lado suas noivas-merengue apostou na vida noturna com pegada disco. Baladas possíveis para mulheres reais e elementos divertidos de um halloween adulto. Apostando em materiais tecnológicos – como poliamida, látex e ferro – a coleção veio marcada por tops elaborados, com estruturas feitas a partir de várias camadas de entretela e colas especiais. Lembrando esculturas, coloridas e sexies, essa profusão de elementos, não aniquila as formas femininas. Através de comprimentos mini e apreço pela forma “violão”, tudo fica parecendo divertidamente sensual.
Contudo, o cenário me pareceu literal demais. As abóboras mal feitas, realmente assustaram. Quanto à falta de vestido de noiva no final? As vezes o príncipe encantado não aparece. Nesse caso, a mulher Cirnansck já pode ir “sensualizar” na boate.
Andam dizendo por aí…
- A doce travessura de Cirnansck não agradou ao André Rodrigues (FFW) que fez alusão ao trabalho de Jean Charles de Castelbajac, como suposto inspirador de copycat. Ele também criticou a aparência gaguística de um dos vestidos (aliás, na coleção passada, o mesmo André havia elogiado a aproximação do estilista com o Universo Gaga). Não concordo com ele! JCDC se utiliza de ícones pop e abusa do tecnicolor (magnificamente), no entanto, ele não é detentor dos direitos autorais de nenhum desses dois elementos. Cirnansck continuou sendo o mesmo exímio construtor de siluetas, apenas partiu de um ponto diferente. Muito mais contemporâneo do que de costume, nem por isso pouco criativo.
- Regina Valadares (Elle) descreveu, descreveu e descreveu. O que ela achou? Não faço a menor idéia.
- Já Regina Guerreiro (UOL) disse que Samuel finalmente acertou a mão e inovou, dando uma “sacudida” na moda, assim como Giani Versacce fez nos anos 80, com a moda disco, complemento Regina, com a propriedade de quem tem anos de experiência e sabe bem o que diz.
- No Petiscos, Adriane Hagedorn confundiu as coloridas calças de vinil com as já saturadas wet leggings. Calma gente, nem tudo que reluz é cirré!
Desconcertante, surpreendente, fresco, e sobretudo travesso – mas com algumas notas de açúcar. Não vai faltar inspiração para o próximo 31 de outubro.
NEM SEMPRE SE PODE SER DEUS: Osklen.
Calças com ares de rede de pesca, ceroulas em lavagens duvidosas, drapeados e sobreposições, tudo isso em uma cartela de cores que ia do branco ao azul marinho. Rainbws cativantes, estampas de paetês, moletons em modelagens surpreendentes… tudo isso é coisa do passado. A Osklen do verão 2011 vem editada, sem firulas nem peças especiais. Um fundo do mar literal e sem carisma. Cores frias e coleção idem.
Andam dizendo por aí…
- Renata Piza (Elle) lembrou que a coleção desperta vontades fáceis, talvez pelo caráter pouco conceitual do conjunto. No fim, a jornalista achou tudo parecido demais, “um tanto quanto repetitivo”.
- Para Erika Palomino (FFW), “A coleção Mergulho no Azul da Osklen se mostra, ao menos na passarela, um mergulho no imenso tédio.” E acrescentou: “a evolução da moda brasileira (e do próprio lifestyle made-in-Brazil) exige mais do que o trabalho de beneficiamento dos materiais e de t-shirts e calças ‘descoladas’.”
- A Família Petiscos limitou-se a descrever.
- Em uma poética descrição sobre a cartela de cores marítimas, espuma do mar e nós de marinheiro, Regina Guerreiro (UOL) quase me convenceu que a coleção era bacana. Mas dessa vez ficou difícil.
Acho esse hype em torno da Osklen meio exagerado, mas em todas as coleções sempre existia pelo menos uma peça especialmente marcante, uma estampa incrível, uma modelagem inusitada , um je ne sais quoi que unia tudo e transformava a corretude de Oscar em algo maior. No entanto, depois de várias temporadas com inspirações naturebas similares e um conceito de marca já estabelecido, a Osklen apareceu pasteurizada. E como disse a Palomino, entediou.
QUANDO A CONTINUAÇÃO NÃO DECEPCIONA: Rosa Chá.
Em sua segunda coleção para a Rosa Chá, Alexandre Herchcovitch reforçou a nova identidade da marca, proposta desde seu desfile anterior. A Rosa Chá vai muito além de beachwear conceitual. Conforme o estilista, a inspiração vem dos trajes usados em dança de salão. Com uma estruturação digna dos espartilhos modernos, estampas de aves e flores, transparências em recortes modernos, a coleção apresenta um bordoir florido.
Andam dizendo por aí…
- André Rodrigues (FFW) marcou bem a transição da Rosa Chá sob o comando criativo de Alexandre Herchcovith. Ele aponta o mix de produtos como a grande inovação do estilista. O jornalista lembra que a coleção como uma espécie de patchwork de tudo o que já foi produzido pela marca.
- Mari Rossi (Petiscos) foi só elogios ao desfile. “Alexandre surpreendeu mais uma vez”.
- Regina Valadares (Elle) explora referências ao passado e se deixa levar pela emoção: “a coleção curiosa só poderia ter sido criada por Alexandre Herchcovitch. Bravo!”
Visualmente linda, é uma coleção cheia de elementos femininos. No entanto, Herchcovitch ainda me incomoda um pouco na relação modelagem modernosa vs. corpo feminino. Basta reparar nos bojos dos sutiãs, que parecem não comportar sequer os peitinho-inhos das modelos. A cintura por vezes parece marcada em um lugar onde não se pode chamar de império, mas também não chega a ser a cintura real.
O feminismo deu lugar ao feminino e a lingerie, ao invés de ser queimada, agora é enaltecida.
Outros trios de SPFW, nos próximos posts.
Pri. | @all_ice









































